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sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Um fotógrafo na França ocupada



"Fotografar é colocar na mesma linha de mira
A cabeça, o olho e o coração".
(Henry Cartier-Bresson)


Não dá para acreditar que vagamos por essa França arrasada
E ninguém nos convida para beber e nem comer nada
Estou faminta e você só quer tirar fotografias!
Como poderei sorrir, estando com tanta fome?


Há dias, erramos por essas estradas frias
Minha Leica captura paisagens e pessoas, não seus pensamentos, querida
Não tenho compreensão do que estamos fazendo, Henri!
É melhor nos apressarmos, vamos sair logo daqui...


... Estou com fome, Henri, vou lhe repetir
Quero bolo, café e um suco gelado
Pois, a sede também me desafia


Tive uma ideia, paramos numa cafeteria...
... Lavamos o rosto, as mãos e nos sentamos lado a lado
Eu peço um café com torradas e você o jornal do dia.



*A Henri Cartier-Bresson (22/08/1908 – 03/08/2004).

sábado, janeiro 05, 2013

A insônia da Morte




“Aqui vejo coisas que a mente humana jamais viu
Aqui sofro frio que o corpo humano jamais sentiu
É este o misterioso reino dos ciprestes”
(Vinícius de Moraes)



Não havia comiseração ou piedade
Atrás da máscara, não havia
Face, às cinco e meia...
... Madrugada, lua cheia que tardia


No horizonte, dormem crianças, lábios abertos
Olhos fechados, Vinícius também dorme
Corpos inertes, vestidos de branco
Enquanto dormem, só os pescadores


Acordaram cedo, tarde da noite
Tão tarde, o medo da morte, cedo
Ela, paciente, espia o mar


É a hora de lançar as redes
Rumar os barcos ao infinito e navegar
Ao profundo e misterioso reino das águas verdes.



*Baseado em “O cemitério na madrugada” de Vinícius de Moraes.

sexta-feira, janeiro 27, 2012

A melhor


“Em vossas jaulas acesas
Mostrando o rubro das presas
Falando coisas do amor
E às vezes cantais uivando
Como cadelas à lua”
(Vinícius de Moraes)





Tu és minha puta preferida
A melhor vagabunda dessa avenida
Nunca preterida, a mais atarefada



Com as mãos...
... Esbanja habilidade
Nessa cidade árida
Sua boca ávida transborda como nascente



Teu corpo exprime sensualidade ardente
Desde que saiu de casa, traz uma história comovente
Agora cale-se e me satisfaça...



... Estou lhe pagando, vamos faça!
Tome garota, estou lhe dando minha matéria
Toque-me e me eleve ao lugar mais alto da platéia



*A Vinícius de Moraes
(19/10/1913 — 09/07/1980).

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Quando deparei-me com aquela tempestade em janeiro


A voz da tempestade, em meus ouvidos, ecoou:
Sem acepção, os bons e os maus temerão os dias vindouros!
Ao longe pude ouvi-la e agora, rapidamente se aproximou
Diante desse sonho, desfez-se a nebulosidade nos meus olhos


Quem se alegrará na alvorada?
Resta-me um verso, raio de lucidez na calçada alagada
Não molhe nossas bibliotecas, nossas roupas no varal
Purifique nossos ares, preserve nossos livros, nossas fotografias, nossos filhos


Acene-me, com ramos e ventos suaves, ao final
Vi um menino deslizar pela enxurrada...
... Sem rastro, como a noite negra que passou
Em seu tecido encharcado e gasto, reparava-me


À minha frente, sua face pálida me fitou
Nunca mais me esqueci daqueles olhos desconcertantes
Porque aquele olhar refletido n' água precipitada


Ah meu Deus, fez-me chorar!
Era negro e profundo...
... Era o meu, a me questionar