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segunda-feira, outubro 19, 2009

Quero dizer-lhes o que só os cegos viram


Inerte, aquela velha árvore queimava-se
Na fuga, seus galhos estendiam-se aos rochedos
Os cegos disseram-me, quero vê-los.



17 palavras.

domingo, outubro 18, 2009

Ao covarde hesitante (só o tempo o aplacará)



Aquele que lutou foi abatido
Tem a boca cheia de terra, desfalecido
Mas, o covarde, alinha-se desinibido.


17 palavras.

sábado, outubro 17, 2009

No palco, a amnésia me aplaudiu



Pedi ajuda da memória, arruinei-me
Já pleno no palco, uma misteriosa hesitação
Perdi a máscara, assombrosa decepção.



17 palavras.

sexta-feira, outubro 16, 2009

Próximos tão ausentes







Na parede não há pregos
Também não temos quadros, fotografias nem lembranças
Apenas a cortina nos inibe.




17 palavras.

quinta-feira, outubro 15, 2009

Um dia, quero mostrar-lhes o que guardei







Outros povos, outras épocas, temporários

Absorvemos técnicas, construímos civilizações, degradamos o planeta

Registramos tudo, guardemo-los nas gavetas.






17 palavras

terça-feira, outubro 13, 2009

Diga-me! (eu vou lá buscá-la)




Se souber onde ela está...

... Encontre detalhes na “écloga definitiva”, caro Virgílio

Estou exausto nessas linhas tênues.






*17 palavras que homenageiam Tim Maia.

segunda-feira, outubro 12, 2009

Como saborear os efeitos (das opiniões)







Inconscientemente, busco opiniões agradáveis agora

Lá fora, juízos e temperos, salgam idéias

Aqui dentro, adoço a matéria.






17 palavras.

domingo, outubro 11, 2009

Suas insinuações ensoberbecem-me (e refletem no temperamento)









Suas insinuações me ataviam, ensoberbecem-me

Conduzem-me a muralha amarga dos rochedos hipócritas


Tornam-se ornamentos desusados, obsoletos; descarto-os.







17 palavras.

sexta-feira, outubro 09, 2009

A atual é sempre a definitiva




Já fostes açoitado pela paixão?
Meus sentimentos medíocres parecem profundos em comparação
Mas passam, recomeça outra sedução.





17 palavras.

quarta-feira, outubro 07, 2009

Quando as opiniões incomodam (ninguém me perguntou)






Outras opiniões geram brados, excitam-lhes
Todavia são breves, pois o hábito delongado
Torturam-lhes, ferem-lhes, deixam-lhes atordoados.




17 palavras.

terça-feira, outubro 06, 2009

O poeta virtual e a hora da metamorfose






Minha vida, nunca houve igual

Vim de um lugar que não existe

E, como ele, sou ficcional.

domingo, outubro 04, 2009

Ascensão da alma





I

Minha cama está em chamas
Esqueço os sonhos das noites passadas, meditação
Queimo moroso, dissipado em solidão.




II

A combustão é lenta, confunde-te
Melhor que consumir-se rapidamente, efemeridade
Não me apague, dê-me eternidade.



17 palavras (em dobro).

sábado, outubro 03, 2009

Aos meus belos amigos (renegá-los-ei?)











Meu cérebro encheu-se e transbordou

Noite passada, aquele bicarbonato destruiu meus propósitos

O tempo festeja minha angústia.





17 palavras.

sexta-feira, outubro 02, 2009

Mau poeta (demasiado humano)





Sou um mau poeta tentando

Terminar uma estrofe sorrindo, emocionando, concluindo, rimando

Mas, o pensamento forte, inquieta-me.





17 palavras.

sexta-feira, setembro 25, 2009

Entre amigos (demasiado humano)







Pareces ingênuo, recusas o absurdo

O que buscas, ansioso, encontraste num livro?

A razão evolui em si.








17 palavras.

quinta-feira, setembro 24, 2009

Demasiado humano (entre amigos)





Calemo-nos juntos, bem ou mal

Mas, se for para rir com desgosto

Faremos dispostos, desceremos ao fosso.







17 palavras.

segunda-feira, setembro 21, 2009

Para ler um livro louco (que perturba)







Discorda-me, sem desculpas, inflexível recusa

Livro-te pelo coração, livra-me do absurdo, alusão

Lê-lo-ei maldito livro, acrescenta-me razão.







17 palavras.

domingo, junho 21, 2009

Otimismo de Lou James, o cândido


"Sic transit gloria mundi."






Há sempre um túnel no fim da luz
Atravesse o lado escuro do paraíso
E vá além...
O decisivo juízo
Foi estabelecido, Mr. Thundertten.

Travou sua batalha
Sofreu pela arte
Teve coragem e medo profundo
Como seu pares,
Envelheceu cedo.

Viveu no melhor dos mundos
Expulso de castelos, amores inverossímeis
Barris e martelos
Sofreu inquisição
Duelou entre espadas com o barão
Deu-lhe cabo, senão.

Perdeu rebanho em El Sufatte
Agora, em reflexão, se apanha
Beije minha face, o presente me engana
Afaste-se de mim
Entre cidras e pistaches
Vá cultivar o teu jardim.





*Dedicado a obra "Cândido ou o otimismo" (1759), 
de Voltaire (21/11/1694 - 30/05/1778).

sexta-feira, junho 12, 2009

Minha morta - Retinas Queimadas




Uma vez, amei perdidamente
Porque amamos brevemente?
É estranho ter na mente, uma predileção
No coração, uma única inclinação
Na boca, inteira satisfação

Um nome que pronunciamos como uma prece
Encontrei-a e amei-a em clamor
E vivi em sua ternura, em seus braços, em seu olhar
Nem sabia se era dia ou noite, não havia rancor
Quando retirava seu vestido, quando me envolvia em seu suor

Não vou contar nossa história
O amor só tem uma
E é sempre a mesma, fatal
Em minha mortalha negra
Narrarei seu funeral

Voltou molhada da chuva
E, no dia seguinte tossia, tossia
Tossiu por uma semana e ficou de cama
Médicos chegavam, receitavam, saiam
Mas a testa era quente e as mãos ardiam

Um padre sarcástico
Disse-me enfático:
- Sua amante foi-se... E fez um sinal
Levei como insulto, expulsei-o do local
Mas veio outro, terno e bondoso e ao falar dela, um pequeno conforto

Consultaram-me sobre o enterro, as coisas relacionadas
Caixão, roupas, música, cerimônia e unção
- Ah, meu Deus, perdão!
Então, ela foi enterrada
Nunca esquecerei o ruído das marteladas

Caminhei pelas ruas
Depois voltei para casa
No dia seguinte, em desatino
Parti em viagem
Paris seria o destino.



Poema baseado no conto: "A Morta":
Guy de Maupassant (1850-1893)

Assista no Youtube: Retinas Queimadas - Minha morta