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sábado, junho 02, 2012

A mão que escreve

Essa é minha maldição
Escrevo textos para outrem
Dou, a sua persona, toda a convicção
A sabedoria, o discernimento, as palavras certas e muita ação
Interfiro na realidade; cedo ao homem à capacidade de criação
De ser menos medíocre abandonando os próprios argumentos
Um velho estadista foi criar em um dia escuro, às vésperas
Da posse do céu, faltou-lhe as palavras, caiu-lhe o véu
...Certo como a noite ficou rubra num clarão
Um "Ghost writer", então lhe surgiu como vespa, pois não
Para domar e sugar rebanhos de olhos vermelhos numa premonição
Uma atividade óculo-manual sob encomenda, canetas e folhas ásperas otimizam
a tração
Da nuvem ilusória que é convencer e dar razão
Cavalheiros, editores e escritores fantasmas brindarão
O nascimento do mais novo best seller
Suas tiragens ainda estavam em fogo brando e já culminam no topo das listas dos mais vendidos
Seus argumentos eram feitos de outras experiências
Ambivalências, axiomas; como interpretar todos esses relatos perdidos?
Suas penas eram pretas e brilhantes e sua respiração ofegante
Só um Prêmio Nobel de literatura poderia senti-la nesse instante
Um relâmpago de medo atravessou a capa dura
Enquanto trovejou através do céu da editora
Os pingos molharam aquelas páginas, por ele, escritas
Ele viu e não acenou aos cavalheiros que vinham em busca de dedicatórias
Não os assinava e nem os dedicava, resignava
Dolorosamente emitiu gritos de tristeza vendo a fila aumentar satisfeita
Os louros da fama, o reconhecimento e a glória nunca serão dele
Sua cara de desolação, suas olheiras, sua camisa encharcada de suor, são...
... As marcas que impedem-no de alcançar o sucesso
Porque começarão uma nova história, doutro rosto
Que para sempre terá um nível acima do céu, novo desgosto
Nos depoimentos artificiais da descoberta do fogo e da invenção da roda
Ele o induz à organização de capítulos com lamentos programados
Enquanto os ávidos por leituras e os bibliômanos galopam
Galopam ao sol e jogam polo sobre lindos cavalos ébanos
Ouviu-se um chamado, era seu nome, quem o encontrará em meio a multidão?
Um conselho para ti...
... Se você quiser
Conservar sua alma livre do inferno
Abandone essa feira internacional do livro em Parati
Dê uma conclusão razoável para a obra encomendada, sare os feridos
Mude suas maneiras de ser o melhor "Gost-writer" da editora mais famosa do país
Ou conosco você retornará para tentar cativar outros rebanhos
Apagará linha por linha e me fará  novos capítulos à sombra de um lider de vendagens infeliz e incapaz de amar como os humanos.





*Eu sou um gost-writer de mim mesmo.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Ouçam essa criança









Que grandiosa criança que possui tão bela cor de areia
Que dança faminta e sabe o que quer
Que bate os calcanhares e levanta poeira
Que salva a raça humana por um motivo qualquer.




Que veio de um reino distante e está a beira
Que tem a pele dourada e fresca, tão natural
Que não se parece nem um pouco conosco
Que revira os olhos e fala com sotaque sensual.




Que dança, cai de joelhos e se levanta sorrindo
Que está sempre à procura de algo, nunca fica estática
Que, sem responsabilidade, brinca e vai se divertindo
Que fez lembrar-me daquela caçada nas savanas da África.




Nunca haverá alguém como você
Nunca ninguém fará as coisas que você faz
Nunca soube o que se passava em sua mente
Nunca mais estaremos juntos novamente.



*Dedicado a James Douglas Morrison
(08/12/1943 – 03/07/1971).
*Baseado em: “Wild Child”, canção do The Doors.


sábado, dezembro 04, 2010

Canto para Neruda



"Um quadro só vive para quem o olha."
(P.Neruda.)




... E a amante velou o poeta que
Morreu lentamente por nunca evitar as paixões
Um dia sua voz renascerá?
O seu maior castigo foi ter vivido sem dores
Em pensar que nunca morreria de novo
Desse refúgio não deixou pistas, apenas páginas escritas


Uma prece fez arder meu coração estrelado
Assim me foi ensinado...
... Ao chegar, toque o sino!
Toque o sino e todos saberão
Que um dia sua voz renascerá numa canção
Numa canção de amor prudente, de amor ao povo, de amor à nação


Então, abriste mão da primavera para continuar contemplando o Pacífico
Assim me ensinou: Ao chegar, toque o sino!
Toque o sino e todos saberão
Que o retorno do mar aconteceu outra vez, sem agruras
E tantas outras vezes, como quem se transforma em escravo do hábito, por repetir todos os dias os mesmos trajetos e gestos específicos
Imaginava, consigo mesmo, que só arderia nas alturas?


A esperança lhe abandonou, os versos não
Depois de partir é que percebi que navegava para não deixar rastros
Um Astro? Jamais lhe pouparei o meu olhar, nunca mais permanecerei inerte
Não abandonarei o chapéu que me deste
Comerei o peixe que me servirem, antes...
Deixarei para a posteridade mais um poema sobre os Andes.



*A Pablo Neruda 
(12/10/1904 — 23/09/1973.)