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domingo, dezembro 09, 2012

Terça-feira, de rubi



"Goodbye, ruby tuesday
Who could hang a name on you?"
(The Rolling Stones)



Nunca questionei sua liberdade
E você, nunca me disse de onde veio
Mas, não me importa o ontem...
... Ou o crepúsculo que virá


Na terça-feira, a noite é sempre mais cintilante
Pois, é nela que usas o colar de rubi
O mesmo que lapidei teu nome
Só para lhe impressionar


Você é como o dia...
... Metamorfoseia-se com a noite
E meus gastos aumentaram, na medida 
Em que tornamo-nos mais íntimos


Mais uma entre tantas, não mais
Terça-feira de rubi, você foi capaz
Durante um ano, minha conta...
... Ah, minha conta bancária, já não existe mais




*Baseado em Ruby Tuesday (1967), The Rolling Stones.

segunda-feira, julho 02, 2012

O prêmio menor


“Ah, isso me faz amar-te mais e mais”
(Núbia Poison)



Em seu quarto, mergulho confiante na escuridão
Nela, não sinto medo e você me chama de “o servo favorito”
Que sabe como amarrotar os seus lençóis
Que perde a cabeça entre suas coxas macias


E, coberto de regalias, faço...
Da inocência, um prêmio e de joelhos me apóio numa promessa
Para levantá-lo; e erguer o prêmio menor sobre a cabeça
Tão leve, quebro o espelho e tento, nele, me reconstruir


Um caco, um toque, uma respiração, um suspiro
Sinta o calor... Sente-me? Toque-me!
Seus braços queimam-me, seus olhos estão flamejando
Nosso tempo acabando, por causa dos erros, dos desaforos, das mentiras


Elas ainda pairam por aqui, veja-as...
... Nesse ponto, no seu local preferido
Seu reflexo, meu reflexo refletido em nossa pele
A força das palavras nos ferindo


Elas pingam como suor, escorrem pelas frestas
Na hora do chá você se aproximou...
... E me mostrou outra tatuagem
Eram dois cavalos negros conduzindo uma bela carruagem


O que esse desenho significa para mim?
Para você, nos encontraremos as 15h00, amanhã?
Traga-me frutas, morangos, uvas, castanhas e maçãs


E gostaria que, novamente, os lençóis fossem trocados
A cada encontro, novos, limpos, preparados
O cheiro dos lençóis limpos deixa-me, ainda mais, por ti, apaixonado



*Baseado em “In your room” canção do Depeche Mode.
*A Dave Gahan.

sábado, junho 02, 2012

A mão que escreve

Essa é minha maldição
Escrevo textos para outrem
Dou, a sua persona, toda a convicção
A sabedoria, o discernimento, as palavras certas e muita ação
Interfiro na realidade; cedo ao homem à capacidade de criação
De ser menos medíocre abandonando os próprios argumentos
Um velho estadista foi criar em um dia escuro, às vésperas
Da posse do céu, faltou-lhe as palavras, caiu-lhe o véu
...Certo como a noite ficou rubra num clarão
Um "Ghost writer", então lhe surgiu como vespa, pois não
Para domar e sugar rebanhos de olhos vermelhos numa premonição
Uma atividade óculo-manual sob encomenda, canetas e folhas ásperas otimizam
a tração
Da nuvem ilusória que é convencer e dar razão
Cavalheiros, editores e escritores fantasmas brindarão
O nascimento do mais novo best seller
Suas tiragens ainda estavam em fogo brando e já culminam no topo das listas dos mais vendidos
Seus argumentos eram feitos de outras experiências
Ambivalências, axiomas; como interpretar todos esses relatos perdidos?
Suas penas eram pretas e brilhantes e sua respiração ofegante
Só um Prêmio Nobel de literatura poderia senti-la nesse instante
Um relâmpago de medo atravessou a capa dura
Enquanto trovejou através do céu da editora
Os pingos molharam aquelas páginas, por ele, escritas
Ele viu e não acenou aos cavalheiros que vinham em busca de dedicatórias
Não os assinava e nem os dedicava, resignava
Dolorosamente emitiu gritos de tristeza vendo a fila aumentar satisfeita
Os louros da fama, o reconhecimento e a glória nunca serão dele
Sua cara de desolação, suas olheiras, sua camisa encharcada de suor, são...
... As marcas que impedem-no de alcançar o sucesso
Porque começarão uma nova história, doutro rosto
Que para sempre terá um nível acima do céu, novo desgosto
Nos depoimentos artificiais da descoberta do fogo e da invenção da roda
Ele o induz à organização de capítulos com lamentos programados
Enquanto os ávidos por leituras e os bibliômanos galopam
Galopam ao sol e jogam polo sobre lindos cavalos ébanos
Ouviu-se um chamado, era seu nome, quem o encontrará em meio a multidão?
Um conselho para ti...
... Se você quiser
Conservar sua alma livre do inferno
Abandone essa feira internacional do livro em Parati
Dê uma conclusão razoável para a obra encomendada, sare os feridos
Mude suas maneiras de ser o melhor "Gost-writer" da editora mais famosa do país
Ou conosco você retornará para tentar cativar outros rebanhos
Apagará linha por linha e me fará  novos capítulos à sombra de um lider de vendagens infeliz e incapaz de amar como os humanos.





*Eu sou um gost-writer de mim mesmo.

sábado, maio 05, 2012

Eu, sob meu domínio


“O que o ser humano mais aspira
É tornar-se ser humano”
(Clarice Lispector)



Eu, Clarice, lembro-me
Como se fosse um desvio
O encontro que tive
Com Sartre, em janeiro, no Rio


Disse-me o filósofo:
“O horror sou eu, diante das coisas”


Seu olhar me perturbava, enquanto falava
Desconfortava-me o cachimbo
Sentia-me escrava do anteontem
Um espectro disforme no limbo


Quando virá a alforria?
Depois do crepúsculo, raso e impassível?
Diante da alvorada nova jornada se inicia
Organizando-me entre frases, sendo hermética e acessível


De súbito, meu corpo torna-se uma extensão dos sentidos
Alcanço o espaço e aumento minha capacidade
Sequencia desordenada numa dimensão em superfície
Com sinceridade, falo da vista, sou uma artífice


Ah, a dor...
... Emana
Diariamente após as 17h00, emana
A dor do apontamento


Sou humana, não quero ser manuseada
Antes, como um lápis apontado
Descobriram minha essência delicada
Essência das cores que possuo, meu legado


Era planta baixa desenhada pelas próprias mãos
Reconstruí-me entre linhas retas e paralelas
Traços na superfície horizontal edificada tornaram-se constelação
Mãos corretas, faixas grafitadas cobrem minhas janelas
... Morro em vão?



*A Clarice Lispector e Jean Paul Sartre.

quinta-feira, março 22, 2012

Sally, o falsário



Seu número, Salomon Sorowitsch, será 75.517
Pilantra charmoso, um artista da cópia
O Rei dos falsários!
A polícia de Berlim sente-se honrada em prendê-lo


Um judeu russo capitalista
Nós conhecemos sua origem e reputação
Dar-lhe-emos a reclusão, mas não o ócio
Trabalhará para nós na prisão


O plano chama-se “Operação Bernardo”
É a execução de uma fraude perfeita, vá escutando...
... Emitiremos grandes quantidades de notas falsas
E nossa máquina de guerra continuará funcionando


Vocês são uns presunçosos!
Acham que podem ir adiante com esse plano tolo?
Os europeus perceberão, em breve, toda essa farsa alemã
E eu não trabalho com quem não fatia o seu bolo


...


Estou mofando nessa cela fria enquanto os alemães consomem
Consomem tudo feito formigas, consomem
A logística energética e o gasto de combustível são enormes
E Hitler sabe que homens bem alimentados são obedientes sob uniformes


Há quanto tempo está aqui, nessa cela, meu jovem?
Há tanto tempo que não sei mais mensurá-lo
Então venha comigo, vamos lutar, tentar sair...
... Desse lugar, ao menos morrer tentando escapar!


Prefiro ser executado a levar um tiro de graça
Ou morrer de inanição, fome e sede são uma enorme desgraça!
Em meio às traças, de que nos adianta sobreviver aqui apodrecendo?


Veja, está amanhecendo, venda sua alma, não seja idiota!
Trabalhe para eles e terá sua liberdade
Beberás e comerás ao lado dele, e poderá se deitar com qualquer mulher dessa cidade




*Baseado em: Os falsários.
Direção: Stefan Ruzowitzky (2007).

sexta-feira, março 16, 2012

Nenhum sonho pode ser mais longo do que um outono






Sem visão para vê-lo aqui de baixo
Da cama, há um louco em minha mente
E ele tem uma idéia, acho...
Bato com a cabeça e ela sangra


Na cabeceira, quando sentia-me bem
As palavras ecoavam dentro de mim
Verdadeiras, ao rastejar eu inalei impurezas
Não consigo encontrar recursos que estaquem o sangramento


Sobre a mesa, para aprender a manusear essa arma
Chamei pelo nome esquecido, arranquei cabelos, penteei-os
Não há alternativas para combater uma calvície provocada?
Pelas mãos, munições para se sentir homem com desejos humanos


Adulto, ser uma criança, ser um velhinho magro
De punir os atos impensados, simples assim...
Porque não pode haver diversão por aqui, nessa cabeça rachada?
Grisalha, não se pode encontrar o caminho para a luz sobre a calçada?


Sozinho não há o que fazer, estou calvo, sem peruca
Por lei, pena na solitária; desejos solitários, vida solitária
Devido ao formato que nos foi apresentada, a cela
Induziu-me à dias escuros e nublados como um hoje eterno


Eu tenho um sentido aguçado, quadrado...
... Ouço o chamado, vindo além das barras de aço
Caem as folhas do telhado, caem os cabelos, há tempos estou aqui
No assoalho, nenhum sonho pode ser mais longo do que um outono


Passo a não levar as coisas tão à sério
É sério, acredite nos meus ouvidos, eles nunca estão prontos para ouvir
Mas, eu ouço o espectro me chamando todas as noites
Nessa frequência inevitável eu o ouço



É verdade, eu ouço sua respiração
Desperto com seu susssurro em meus ouvidos
Seu nome, Todd Rundgren, sinto as batidas do seu coração...
Responda-me, todas as minhas dúvidas, num refrão


A única verdade absoluta, dizia o velho trovador
É a certeza da morte, e nela há que se regozijar
Para alcançar algo supremo e descobrir
Que certamente tudo o que eu quis sempre esteve fora do meu alcance



Suave maré de paixão, agora somente um sonho, amor esquecido...
É, somente um sonho como outro qualquer, esqueço o pavor
Puramente suplico por um barulho, a quebra das vidraças
Estou molhado e já não tenho toalhas para me secar o suor


Faça-me acordar e interromper esse sonho que não se finda
Entorpecido, há diversão sempre que eu desejar, um violão para tocar?
Um homem sozinho não consegue o perdão ao, de joelhos, suplicar e orar?
Eu não posso me manter em penitência eterna?
Devido a forma dos dias de hoje que passam tão rápido
Tenho um sentido afiado, e então, num esforço, acordo e ouço o som do ponteiro metálico


Tic-tac, tic-tac... Tic-tac, tic-tac... Tic-tac, tic-tac...




*A Todd Rundgren (22/06/1948)

quinta-feira, março 01, 2012

Longa ou curta (metragem)


"(...) A freguesia, relutante concorda
                          E a fila se faz interminável, prolongada na escuridão
                             Tumultuosos, os homens raivam e rugem de febre
                           Palavras altas, grossos palavrões, confusos gestos
        Muitos cambaleiam, na mão uma garrafa de cerveja ou cubra libre
          Gelo cantando nas bordas do copo: Helena, Helena, He... lená!"
                         (Trecho de "A noite sem homem" de Orígenes Lessa)




As traças no botequim
Criavam o cenário atrás de mim
À frente do quarto da Marivalda
“Uma guerreira descolada” definia-se assim!


Para mim, abatendo um “Rei-da-Selva” por dia
Contando-me a história de sua sobrevivência, vadia
Mantendo reserva, mantendo distância, encenando a novela do “horário nobre”
Fazendo uma “pecinha”, vasos de barro e pulseiras de cobre...


... Dirigindo um “filminho” com parco orçamento
Uma saga chinesa entre biscoitos da sorte descobriu o budismo
Perdeu-se pela lente de uma vida esnobe
Controla seu destino sob lençóis, com outros se cobre


No ato, seu espírito vaga e foge
Quanto ao corpo, quer conforto de pobre
Interage, acompanha... Nem sempre há colchão


Talvez de pé, quem sabe no chão?
E, em breves minutos se envolve, sem excitação
Mas, deixa as distâncias cada vez mais curtas, competindo com outras putas, a consumação.



*Baseado em: “A noite sem homem” (1976), Orígenes Lessa.

sábado, outubro 15, 2011

Pesadelo na Terra dos Sonhos




Havia esperança e éramos muitos
Mas a incerteza e a insegurança vieram e pairaram no ar
Tínhamos as mentes sob uivos, assombros e terror
Dúvidas, muitas dúvidas, prece e louvor


Amenizavam, o fogo brilhava intensamente trazendo calor
Havíamos acabado de acendê-lo e nossos olhos brilhavam
Brilhavam de pavor e pudemos vê-lo
Ah, lembro-me quando o vimos se aproximar...


... Tinha braços enormes e a cabeça se destacava
Garras e dentes que nos intimidavam
Começamos a correr, correr o mais rápido que podíamos
E, aquele estranho ser, passou a nos seguir


Desde então, vivemos aflitos e inseguros por aqui
Nesse mesmo lugar que escolhemos com convicção
Era a "terra dos sonhos", afirmávamos aos irmãos
Hoje, vivemos acuados e temerosos, sem respostas, sem razão


Há alguns que duvidam e nos dizem:
Não acreditamos nisso, é tudo fruto da imaginação
E vocês são uns tolos por terem escolhido esse lugar de podridão
Mas, questionar o nosso sonho não está mais em questão



*A Lon Chaney Jr: The Wolf Man (1941).

segunda-feira, outubro 03, 2011

Lou Reed na sala de jantar




Estamos todos reunidos na sala de jantar
E, roemos as unhas uns dos outros
Já que, não há como roer as nossas próprias
Eu olho pela janela de vidro e só percebo construções utópicas


Parece ser muito fácil fugir desse lugar decadente
Mas, as últimas notícias vindas daquele velho jornal
Avisam-nos que, devemos permanecer trancados mantendo a calma
Afinal, não é bom sair por aí numa fria noite de natal


Estou cansado demais para pedir sua mão
Nela, percebo que não há mais unhas aptas ao rôo
Aqui, todos sonhavam com altos cargos de diretoria
Investidores da bolsa, exploradores de petróleo, comerciantes de especiarias...


... Hoje, só vemos o calçadão sujo repleto de cachorros imundos
Encharcados pela última chuva, hospedeiros de pulgas e carrapatos
A noite está límpida e podemos ver as estrelas, ouvir o barulho dos sapatos
Também ouvimos um concerto... Acho que vem do Teatro Central


As ruas trazem malícia e crianças vendem rosas de plástico nas esquinas com semáforos
Quando estão todos vermelhos, as prostitutas se aglomeram oferecendo seus serviços
Fico observando como selecionam seus clientes a dedo
De repente, achei a sorte, encontrei um livro dentro da lixeira


E, enquanto eu ter que permanecer aqui, lê-lo-ei 
Até que eu descubra realmente o que ele quer dizer 
Pois, não é sempre que se encontra um clássico na lixeira
Apoio-me na cadeira e começo pelo capítulo que terminei na última terça-feira



*A Lou Reed.
Nascido Lewis Allen Reed
(02/03/1942 - 27/10/2013).