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quarta-feira, setembro 07, 2011

Fängelse




Percebe o silêncio no tribunal?
Provas apresentadas, veredicto do magistrado...
... Então, todos se foram
Só você ainda está aí, meu mestre?


Você já não estava confiante com as provas que levantaste
Seu advogado de defesa o havia alertado, antes...
... Bem antes; será que sua mente privilegiada conseguirá se sentir livre agora?
Sem demora, cumpra-se a pena!


Dê-me a solidão, sem clemência
Dê-me a clausura, sem perdão...
... Diga-me Bergman


Existe algo além...
... Do frio, da morte
E da solidão?



*Fängelse (1949) é um filme do diretor sueco
Ingmar Bergman (1918 – 2007).

quarta-feira, julho 20, 2011

Qual de nós irá se machucar com ele?



Fui um copo de cristal por ti vilipendiado
Desfiz-me em mil pedaços
No momento em que fui derrubado
E, foi tão difícil me recolher daquele lugar...


... Propositadamente
Deixei um caco em nossa vereda
Um fragmento de mim mesmo
Apenas um caco para feri-la ao passar por ali novamente


Mas, a sua distração
Ao perceber o canto de um passarinho
A fez passar incólume
Pela armadilha do caminho


O caco permanece lá...
... Inerte, brilhando ao sol, despercebido na noite
Qual de nós, um dia
Irá se machucar com ele?




*A Liv Ullmann(16/12/1938).
Estrela dos filmes de Ingmar Bergman.

segunda-feira, abril 25, 2011

O estranho silêncio da senhorita Vogler



O que lhes contarei ocorreu nas frias e longínquas plagas suecas. Sou a enfermeira Alma e contar-lhes-ei tudo o que aconteceu. Trata-se da senhorita Vogler e ela ficou em silêncio por mais de um minuto naquele teatro. Um longo, longo minuto que deixo-nos atônitos, pois interrompeu seu belo ato

Repentinamente; ela parecia estar surpresa com esse fato. Como é possível ser uma só e outras tantas? Diante da platéia curiosa e atônita. Sorriu com a boca e se esquivou

Para trás da gélida cortina rubra, então... Viu-se nela um semblante infantil, um leve prazer. E um olhar maligno um tanto estranho, já sentada em seu camarim. Desde o início, sabia que nada poderíamos fazer

Por ela; o seu silêncio profundo e sua inanição. Foram tomados por sua própria decisão, ela possui enorme força mental . E está se testando, assimilando seus medos, provando da sua própria dor. Analisei-a por duas semanas pude chegar a essa constatação

Eis aqui os relatórios, doutor...






*Baseado em: Persona (1966)
Direção: Ingmar Bergman.

terça-feira, março 29, 2011

A face de Deus



Um velho espelho, no chão da aldeia vazia
Refletiu minha alma vazia
E nele, vi o meu rosto e senti o verdadeiro horror


Delirei pela febre que me consumia feito chama
Isso me fez indiferente as mazelas humanas
Fechou-me num mundo triste e de sombras


Em meio às sombras, fantasmas assombraram meus pensamentos
Fizeram-me prisioneiro, tornei-me culpado por todos os crimes que me acusaram
Mas, ainda assim, não quero morrer...


... Sim eu quero morrer!
Antes, buscarei o conhecimento
O conhecimento empírico, o conhecimento científico


O conhecimento das sagradas escrituras
Vaidade... Tudo é vaidade para quem ama o discernimento!
Vi Cristo, em madeira, crucificado e entendi o seu propósito


Está muito claro para mim agora...
... Nele não havia soberba, apenas um plano a se cumprir
Ordens do Pai, filho obediente que salvou toda a humanidade por amor


A ela, digo e penso, num turbilhão, que preciso de garantias
Deus dê-me garantias!
É tão difícil conceber-lhe; afinal, vós não sois matéria física


Feito a sua imagem e semelhança tornei-me cavaleiro
Lutei, venci e perdi batalhas por um rei físico, efêmero e vaidoso
Eu vi a morte em minha frente, a tive em minhas mãos


Todavia, o sobrenatural me fez contestar os sacros ensinamentos
E as promessas se perderam na neblina do ceticismo
Como posso acreditar nos milagres e nas promessas?


Se já não acredito em mim mesmo...
... Mas, eu quero acreditar... Acredite-me!
O que será de mim no dia do Juízo Final?


Afinal, haverá realmente, um Juízo Final?
Todas essas dúvidas fazem de mim um pecador?
Fogo e enxofre serão as recompensas do meu mérito?


Queimar-me-ei pela eternidade?
Homem de pouca fé...
... Todos os outros homens acreditam que sou um condenado


Humilham-se diante das incertezas, temem o que está escrito
Recitam preces decoradas e participam de rituais em latim
Sei, mesmo sem comungar, que não posso tirar Deus de meu coração


Ele é uma realidade, assustadora realidade onipresente
Sempre busquei conhecimento
Sim, o conhecimento é tão valioso para mim


Não quero buscar crenças e nem superstições
Eu quero a sabedoria onipotente!
Mas, para que?


De que me valeria tanta sabedoria?
Se Deus me tocar e mostrar-me o seu rosto...
... Seria soberbo de minha parte gabar-me por isso!


Essa é a sabedoria que busco?
Quando tive medo e chorei clamando Ele não me apareceu
Não me confortou naquela vala enquanto o inimigo avançava


Meus companheiros morreram, eu permaneci vivo
O que eu tenho de diferente diante da morte?
O que sei é que não quero conviver com essas lembranças mórbidas


Eu vi a face da morte...
... Quero a face de Deus como alento!
Tudo e nada são a mesma coisa quando se está numa guerra ou resistindo a peste


Só o instinto de sobrevivência prevalece e o sobrenatural não nos protege
Sei que a maioria das pessoas não pensam na morte
Enquanto eu penso nela todas as noites


Até que chegará o inevitável dia...
... O grande dia do encontro
Ah, quando será esse dia?


Percebê-la-ei se aproximando?
Farei dela um ídolo e diante dela me prostrarei?
E, nesse momento verei a face de Deus?


*Baseado em: O Sétimo Selo (1956), de Ingmar Bergman.

domingo, dezembro 19, 2010

O que faríamos se tivéssemos o poder nas mãos?






Caminhando pela fria floresta, apenas sangue encontrei
Enquanto as tarântulas marrons saiam da neve, olhando-as me arrepiei
Então, sem me conter apertei o olho do cervo
Acredite em mim, apertei
Não há sensação mais inebriante do que apertar...
... Apertar até estourar o olho de um cervo domesticado






Agora, ao acordar sinto...
... Sinto que tenho um prego fincado na palma de minha mão esquerda
Ah meu Deus!
Porque na esquerda ele foi-me fincado?
Essa era a mão do ato onanista de um pobre solitário
Por este lado, durante muito tempo manipulei-me com ela






Não consigo imaginá-la presa a uma estaca
Mas, sei que é a punição necessária
Enquanto a neve cai na floresta e as tarântulas vão se emanando
Estou, resignadamente, aos céus, pagando
Pagando por todos os meus pecados carnais
E, delicadamente uma taça de tinto seco, com a direita saboreando






Vários corpos chegaram inertes ao IML
Frios, pude ouvir o telefone... Uma música tântrica soava
... Ninguém o atende e um corpo se vira
Não acredito que seja Bibi Andersson
Afinal, atrizes são imortais mesmo na Suécia
Ela fica em decúbito lateral, abre um livro e sorri sem os óculos






Somente por estar tão longe dele posso identificar o título
É “A Odisséia” traduzida para o latim
Assim, descobri tudo; era tão óbvio o que diziam sobre mim
Foram longos sete anos que passaram como uma semana
Fui Ulisses prisioneiro em sua ilha vulcânica
E, somente pelo silêncio acalmou-se minha alma mundana






Dinâmica, a indiferença é o seu melhor papel?
Vamos ligar o rádio e contemplar o pôr-do-sol?
Falar sobre o perdão e saborear o fígado frito de um leão?
Brincaremos de mímica e leremos as velhas cartas do Barão?
Escritas com carinho e pena à prometida daquele nobre casarão
Da praia ao sul, entre os penhascos da fronteira dinamarquesa






Porque devemos sonhar que somos uma certeza?
Apenas parecemos e isso basta-nos!
Sonhar aqui é-nos inútil, precisamos é estarmos atentos
Descobrir o que faríamos se tivéssemos o poder nas mãos
Ou então...
... Como cuidaríamos se tivéssemos animais de estimação?










*Bibi Andersson (11/11/1935).
Atriz sueca que estrelou filmes de Ingmar Bergman.

domingo, setembro 06, 2009

Reflexões do poeta sobre: "O Sétimo Selo"



"O Sétimo selo", de 1956, é um filme do diretor sueco Ingmar Bergman.
Nele, o diretor expõe o perfil duma humanidade desesperada e moribunda, sob o agouro implacável da Morte, no século XII.
Mas, Bergman perspicaz, apresenta-nos um final onde é possível ter esperanças.
A família de artistas são os únicos personagens que sobrevivem à “caçada” da Morte.
A arte aqui exposta é aquela do mambembe puro; integrante da trupe e senhor digno, responsável pela família que vive da arte e trabalha para levá-la ao público.
Esses artistas, de algum modo, conseguem escapar da Morte deixando o rastro da sua arte.
Presume-se então, a perpetuação do homem e de sua alma somente por meio de expressões artísticas.
Produz-se algo efêmero, mas intenso e imortal diante da imensidão espaço/tempo: sua obra.
O sentido da continuidade dos homens e suas idéias, surge então, por intermédio da arte e suas inspirações.
No filme, todos os demais personagens que representam outras categorias sociais sucumbem ou estão a mercê da Morte.
O cavaleiro, tenta, por meio de um jogo de xadrez, vencê-la, mas a Morte nunca é vencida pelos humanos.
Ludibriosa, confunde-os.
Acuada e na iminência da derrota, disfarsa-se de pároco e ouve, pacientemente, a confissão do cavaleiro dizendo qual seria sua jogada fatal.
Com essa informação preciosa, a Morte muda sua estratégia e dá: Xeque mate!
O cavaleiro, derrotado, perde mais que uma partida, perde sua vida.
Venceu a peste, venceu batalhas, mas na volta para casa, moribumbo cai de joelhos, na busca do perdão, precipitado, errôneamente, numa confissão.
A Morte os acena impávida; ao cavaleiro medieval e seus pares.
Eles a vêem se aproximando.
Ocorre, então, poderosa tempestade e, no momento seguinte a lúgubre visita, o sol surge portentoso, insólito, trazendo esperança no caminho por onde a família de artistas toma seu rumo na busca de novas platéias.
Vídeo: Youtube.