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segunda-feira, abril 02, 2012

Onde estão as chaves?



"Sim ou não?
Essa pergunta surgiu-me de chofre no sono profundo
E acordou-me"
(Graciliano Ramos: Insônia) 




Penso em matéria e morte
Mistura e separação...
... Benção, azar e sorte


Construir uma casa ao norte
Que me servirá por uma década
E, passo a perceber os que constroem pela primeira vez


Reminiscências inéditas permeiam esse lugar
Preenchem meu céu, trazem-me desabafo
Em desacato, dos fatos vulgares, tiro sarro


Acabei de chegar...
... E preciso entrar
Mas, percebo e constato
Que deixei as chaves, num outro lugar.



*A Graciliano Ramos de Oliveira (27/10/1892 — 20/03/1953) 

terça-feira, fevereiro 21, 2012

Rua Aurora, 69


Próximo à República, trabalho
Não discrimino, não tenho fobias nem preconceito, trabalho
O que me faz fazer isso?
Trabalho... Na Aurora, todas as noites, trabalho


Sinceramente, sou bonita sem maquiagem?
Sou divertida quando eu faço uma tirada?
Você me entende e me quer, então eu te quero
Antes de me conhecer, já buscava o que eu tinha para lhe oferecer


O lance evoluiu, você me trouxe o que eu buscava, em seu bolso
Da frente, nessa noite, outubro quente
Sem chuva, você será meu namorado por 45 minutos
Até o fim, eu serei sua, sem arrependimentos, só amor programado


Nós podemos transar até morrermos, lado a lado
Voltaremos à juventude, caminharemos abobados
Assim seremos jovens, rolando nesse gramado imaginário?


De novo, você me fez cair em um sonho adolescente
Prepotente, eu fico tão excitada que não conseguirei dormir, essa noite
Sendo-me tão excitante, fica um pouco mais caro, devo-lhe admitir, sorridente


Complacente, você me paga...
E voltará, em breve, novamente

sábado, fevereiro 04, 2012

Assim falava o caçador


A todo momento só pensei nas gerações que virão...
... Depois
E, a língua não é um corpo morto
A profanação do corpo da língua e sua desfiguração...


... Não pode ser vista como um atentado à vida
Nem a cultura social abomina as gírias nessas plagas
Será que estou apto a combater toda e qualquer forma de barbárie cultural?
Homem especialista, abandonado pelas ninfas na floresta do saber?


Diante da árvore da vida, optei pelo fruto da árvore do conhecimento
Elas são distintas e continuam em minha frente
Volto, então, para mim mesmo
E o que vejo?


... Byron, Nietzsche e Brecht
Ainda tenho sede, devo alimentar a essência, como...
Alguém que tenha pensado e criado no mesmo idioma que o meu
Em minha cabeça ressoa:


Onde estarão agora...
Drummond, Quintana, Pessoa?
Devo agir, preciso viver e respirar o novo século
Navegar e buscar as pegadas que me levarão à presa!


E, de tanto estudar, compreendi que as pegadas que segui
Eram dele, o filósofo máximo, eram de Nietzsche
O prazo se extinguiu diante dos meus olhos
Vem o tempo e seus ponteiros e calendários
Rumarei ainda hoje para bibliotecas desconhecidas
Partindo sem dizer adeus aos ordinários.

 
 
*Homenagem aos mestres que me ensinaram a ler e escrever.

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Quando deparei-me com aquela tempestade em janeiro


A voz da tempestade, em meus ouvidos, ecoou:
Sem acepção, os bons e os maus temerão os dias vindouros!
Ao longe pude ouvi-la e agora, rapidamente se aproximou
Diante desse sonho, desfez-se a nebulosidade nos meus olhos


Quem se alegrará na alvorada?
Resta-me um verso, raio de lucidez na calçada alagada
Não molhe nossas bibliotecas, nossas roupas no varal
Purifique nossos ares, preserve nossos livros, nossas fotografias, nossos filhos


Acene-me, com ramos e ventos suaves, ao final
Vi um menino deslizar pela enxurrada...
... Sem rastro, como a noite negra que passou
Em seu tecido encharcado e gasto, reparava-me


À minha frente, sua face pálida me fitou
Nunca mais me esqueci daqueles olhos desconcertantes
Porque aquele olhar refletido n' água precipitada


Ah meu Deus, fez-me chorar!
Era negro e profundo...
... Era o meu, a me questionar


sábado, outubro 15, 2011

Pesadelo na Terra dos Sonhos




Havia esperança e éramos muitos
Mas a incerteza e a insegurança vieram e pairaram no ar
Tínhamos as mentes sob uivos, assombros e terror
Dúvidas, muitas dúvidas, prece e louvor


Amenizavam, o fogo brilhava intensamente trazendo calor
Havíamos acabado de acendê-lo e nossos olhos brilhavam
Brilhavam de pavor e pudemos vê-lo
Ah, lembro-me quando o vimos se aproximar...


... Tinha braços enormes e a cabeça se destacava
Garras e dentes que nos intimidavam
Começamos a correr, correr o mais rápido que podíamos
E, aquele estranho ser, passou a nos seguir


Desde então, vivemos aflitos e inseguros por aqui
Nesse mesmo lugar que escolhemos com convicção
Era a "terra dos sonhos", afirmávamos aos irmãos
Hoje, vivemos acuados e temerosos, sem respostas, sem razão


Há alguns que duvidam e nos dizem:
Não acreditamos nisso, é tudo fruto da imaginação
E vocês são uns tolos por terem escolhido esse lugar de podridão
Mas, questionar o nosso sonho não está mais em questão



*A Lon Chaney Jr: The Wolf Man (1941).