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sábado, maio 05, 2012

Eu, sob meu domínio


“O que o ser humano mais aspira
É tornar-se ser humano”
(Clarice Lispector)



Eu, Clarice, lembro-me
Como se fosse um desvio
O encontro que tive
Com Sartre, em janeiro, no Rio


Disse-me o filósofo:
“O horror sou eu, diante das coisas”


Seu olhar me perturbava, enquanto falava
Desconfortava-me o cachimbo
Sentia-me escrava do anteontem
Um espectro disforme no limbo


Quando virá a alforria?
Depois do crepúsculo, raso e impassível?
Diante da alvorada nova jornada se inicia
Organizando-me entre frases, sendo hermética e acessível


De súbito, meu corpo torna-se uma extensão dos sentidos
Alcanço o espaço e aumento minha capacidade
Sequencia desordenada numa dimensão em superfície
Com sinceridade, falo da vista, sou uma artífice


Ah, a dor...
... Emana
Diariamente após as 17h00, emana
A dor do apontamento


Sou humana, não quero ser manuseada
Antes, como um lápis apontado
Descobriram minha essência delicada
Essência das cores que possuo, meu legado


Era planta baixa desenhada pelas próprias mãos
Reconstruí-me entre linhas retas e paralelas
Traços na superfície horizontal edificada tornaram-se constelação
Mãos corretas, faixas grafitadas cobrem minhas janelas
... Morro em vão?



*A Clarice Lispector e Jean Paul Sartre.

terça-feira, maio 18, 2010

Poema da alma


I

Oh, minh' alma
Onde esteve essa noite?
Deixaste-me sem nada


II

Só com os mistérios dos sinais
Esperei que voltaste...
Mas, agora, é tarde demais


*A Clarice Lispector
(10/12/1920 - 09/12/1977).

quinta-feira, maio 06, 2010

A habitante do quarto dos fundos





Todos os seus atos eram mecânicos
Mas, seu espírito...
Parecia ter vindo de um bosque

Emergia da escuridão do quarto dos fundos
E iniciava as tarefas da casa
Dia-a-dia limpando meu universo imundo

No rosto, carregava traços do tempo
Na boca reta, suspiros de esperanças métricas
Ah, como era-me estranho vê-la comendo frutas cítricas

Mastigação ofegante, chupava-as fazendo barulho
Aquela dentição brilhante sempre à mostra
Espanando e cantarolando suas cantigas de roça

Às vezes, subtraia valores deixados ao esquecimento
Nutria-se de forte crença e discretamente presenteava sua mãe
Com gêneros perecíveis de minha despensa.


*Baseado em: “A criada”,
conto de Clarice Lispector.

quarta-feira, maio 05, 2010

Entrevista com Clarice Lispector


por: Núbia Poison


Nossa, meu momento máximo!
Vim entrevistar-lhe, e gostaria de lhe dizer...
... Não sou uma entrevistadora diante do entrevistado
Sou uma fã em contato com seu ídolo


Grrata, muito grrata minha jovem
Podemos começarr...
So... Vamos lá!
... Sua presença me inibe Dona Clarice


Ficaria lhe olhando por horas
Admirando, apreciando-a...
Minha jovem, então não perrgunte nada
Vamos aos fatos pela panorrâmica


Sou uma trrabalhadorra óculo-manual
E considerro um livrro prronto como um livrro encerrrado
Também não gosto do que escrrevo
Porr isso, não faço rrevisões e não rreleio minhas publicações


A senhora se considera uma escritora profissional?
Não, não me considerro... Porrque, só escrrevo o que querro
... E quando eu querro
No dia-a-dia, minhas ações ultrrapassam qualquerr palavrra


Pergunta inevitável: Acreditas em Deus?
Assim como a hóstia não tem gosto e é parrte de um rritual
E sei que sou feita a imagem e semelhança Dele...
Bem, se sou semelhante, também sou crriadorra
Foi Ele quem me mandou inventarr
E depois que captei o “espírrito da coisa”
Me torrnei escrritorra
Sou “Crristã laica apostólica” e Deus é de quem consegue aceitá-lo, senti-lo
Essa aceitação tornou-se forrça maiorr em minha vida!


Conte-nos um pouco sobre a Clarice como mulher...
Nunca me esqueci das pessoas com quem dorrmi
Mas, vivo exclusivamente o prresente
Como mulherr, sou rreduzida em mim mesma
E o espanto me impele
Também vou ao merrcado e cuido das rroupas
Adorro cozinharr parra alguns amigos e rrecebê-los de vez em quando


Na sua trajetória de vida, existe algo que gostaria de ter feito...
... E não fez?
Gostarria de terr mentido nos momentos cerrtos
Porrém, escrrevendo, eu não minto nunca


Como é escrever um livro, um conto?
Em que se baseia?
Esse ato é como serrrar uma barrra de ferrro!
Voam faíscas que não me ferrem


Mas, da medo ao começar?
Histórrias muito simples me causam aflição
É muito difícil elaborrarr uma histórria simples
Meus livrros, mesmos os insípidos, trrazem-me um rritual
O rritual do abandono do conforrto


Muito obrigada pela atenção e pelas palavras
Reitero o quanto a admiro, li tudo o que escreveu
Qual texto meu você mais aprrecia, minha jovem?
“O ovo e a galinha” é extremamente hermético traz-me questionamentos inverossímeis e...
“A paixão segundo G.H.”, trouxe-o para a senhora autografá-lo!


Hum, realmente “O ovo e a galinha” trrilhou por um caminho obscurro...
Dê-me aqui o livrro, farrei uma dedicatórria a jovem rrepórterr Núbia Poison...
Muito grata!
Ah, inefável minha escritora, inefável
Deixe uma mensagem aos leitores, para terminar
Cerrto...
Semprre fico atenta aos astrros e
... Obserrvando o univerrso, perrcebo que viverr não é coisa lógica!
Uma flauta doce é coisa lógica!


*Homenagem a Clarice Lispector: 1920 - 1977
*Núbia Poison, integrante virtual e roadie dos Retinas Queimadas é jornalista das publicações Retinas News.
*Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Como uma virgem






Não caminho sobre as águas
Caminho dentro delas
Opondo-me à sua resistência


Em desafio, transformando o ato de adentrar
Num rompimento leviano da quebra do paradigma
Percebendo que me conheço menos a cada dia


Faço um gesto, as mãos em concha
Bebo-te em grandes goles com consciência
Somos um e estou igual em mim mesmo


A mesma substância etérea nos compõe
Não me falta mais nada agora, nem prudência
Por dentro efervescência, por fora, displicência


Não necessito do teu frio, somos iguais em frigidez
Como um camponês, busco o conforto dos verdes campos
Nesse oceano sou só mais um entre tantos


Transbordo-me de felicidade, mas mantenho-me sério
Esse rito me fadiga, traz-me questionamentos existencialistas
Eu, tão grande quanto seus caminhos inverossímeis?


Olho para trás, não vejo rastro
Ficou a chegada
Apenas na areia, à margem


Como uma virgem, sem sofreguidão
Retorno sabendo que o teria quando bem quisesse
Não precisava mais prová-lo, nem tentá-lo e é isso que me ensoberbece.



*Baseado no conto: “As águas do mundo” 
de Clarice Lispector.

quarta-feira, julho 08, 2009

Ressaca nervosa




Pela manhã era sempre a mesma coisa.

De ressaca, acordava aos cacos.

Vagarosamente ela abria os olhos.
Desdobrando-se lentamente.


Tinha quinze anos, não era bonita.
Dentro da magreza havia incertezas, sempre aflita.

A ressaca a atacava, movia os olhos em meditação.
O despertador tocou; sua missão... Era hora ir a escola.



Então, ela sorriu, como se sorrir fosse o objetivo iminente.
Feito um nó, engolia o café quente, mal tocou no pão.

Não deu bom dia, não falou com o irmão.
Passou indiferente à presença da vizinha com a boca fresca do creme dental.


Ônibus, caminhada, olheiras no reflexo.
Uma hora se passou, nebulosidade e poeira contemplando sua sede.

O vento da manhã violentando a janela, seus lábios frios rangiam dentes.
Pensamentos desconexos povoavam sua mente.

Devaneios agudos num instante presente.

Livros, cadernos, canetas coloridas.
Rua larga, carros, motociclistas e pessoas esquisitas.

No ponto de parada, uma freada fatal.

Estendeu o braço e desceu antes, calculando mal a parada.
O ônibus metálico avançou o traço.
Estacou no seu rosto fumaça e calor.
Um corpo quebrado cambaleou, caiu no  asfalto.

Perdeu a vida, pobre menina, perdeu seu tempo, ociosa.
Perdeu as horas, perdeu a vida por uma ressaca nervosa.




*Baseado no conto: "Preciosidade" 
de Clarice Lispector.
(10/12/1920 - 09/12/1977).

sábado, junho 06, 2009

Cemitério de cachorros



Quando o homem atingiu a colina
Viu de cima as pessoas, as meninas
Tetos irregulares, sino a badalar
E lá embaixo, transeuntes a pecar.

Tirou os óculos, piscou os olhos
Olhou ao redor, saco no chão
Dentro dele
Um cadáver, um cão.

Cachorro desconhecido
Começou a cavar
Animal desaparecido
Sob a terra em breve estará?

Mas, se fosse outro?
O verdadeiro cão?
Enterrá-lo-ia na escuridão?
Quis olhá-lo melhor, gerou-lhe perturbação.

Aqui jazem os cães!
Pensou a olhar.
Ao redor várias covas.
Paisagem limiar.

Sua ideia era enterrar.
Necessidade criada, afã de cuidar.
Cuidar de um cão morto.
Pá na mão e um conforto.

Aqui mesmo, pensou.
E, num gesto grotesco, começou...
Pá fincada o chão abriu.
E com delicadeza o cão caiu.

Pousou naquela cova.
Viu terra na mão.
Admirou com certo gosto.
A sua perfeição.

Começou a pensar.
No verdadeiro cão.
E com dificuldade não encontrou a razão.
Deu-te então, o nome Abraão.

No cemitério dos cachorros loucos.
Esse homem trazia a dor.
Passava noites em claro.
E de dia professor.

Em sua cidade triste.
Ninguém o observava.
Mas ele recolhia.
Cada cão que encontrava.

Cães famintos, quase mortos.
Dava cabo, resignava.
Sua missão.
Os seres desintegrava.

Era assim que o queria.
Cobrir os cães com terra fria.
O professor de matemática.
Lecionava geometria.

Naquele dia frio.
Deu um suspiro fundo.
Um sorriso amarelo.
Um regozijo quase imundo.

Passava discreto, sua sina.
Inocente de libertação.
Abatia cães como insetos.
E no colégio outra missão.

Lembro-me de ti quando era pequeno.
Meu cachorro inquieto, sumindo era certo.
Aquele homem cheirava as ruas.
Num gesto repleto de agruras.

Quem é o cão heroico.
Quem sairá dessa punição?
Viver é uma alegria?
Para os cães uma missão.

Eu via a angustia em seus olhos.
Via a angústia de ser cão.
Quem poderia abandonar-te?
Matar-te com um ferrão?


*Baseado no conto:
"O crime do professor de matemática" 

de Clarice Lispector.