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sábado, outubro 01, 2011

O último mergulho do diretor



James, por favor!
Não se aproxime da água
Ela poderá te ferir
Devo interferir no seu banho de sol?


Volte, dê um passo atrás
Vou discordar de ti
O futuro não é só velhice, doença e dor...
Sei que gostas desse lugar


Precisas de paz, muita paz
E, há várias maneiras de obtê-la
Tente James, tente se libertar desse pensamento
A autodestruição não lhe cabe


Luzes e câmeras, ação no estúdio
Fizestes inesquecíveis obras-primas
E, ainda não é hora de sair de cena
No prelúdio, não usarei a palavra “louco”


O que essa menção causaria?
Petrificar-lhe-ia?
Seria melhor assim...


... Saia do sol e sente-se ao meu lado
Ao longe, vejamos as ondas
Sei que sempre gostou de trabalhar nas sombras.






*A James Whale
(22/07/1889  –  29/05/1957).

quarta-feira, agosto 24, 2011

O castigo do escritor

Fui acometido por um enorme e trágico
Enorme e trágico castigo
E agora, preciso escolher...


... Entre nunca mais narrar e escrever
Ou ter os olhos arrancados
E para sempre outro livro jamais poder ler


Percebo então, que a sina do escritor
Não é somente narrar e escrever
Isso, por sorte é fugir do inevitável, tentar escapar da morte


A sina do escritor, na verdade
É ler e reler, amar os clássicos e por eles se derreter
Está decidido, tomem-me a pena e não mais voltarei a escrever!


Deixo como testamento...
... Um romance pela metade e algumas poesias inacabadas
Mas, o meu Ulysses, Dom Quixote, os versos de Pessoa e os relatos de Yourcenar
Serão novamente lidos e degustados até que a ”Desdentada”, um dia, venha me buscar.



*A Rosa Montero

segunda-feira, agosto 01, 2011

A angústia do poeta


Estou sentindo a concepção...
O sêmen da música e o óvulo da filosofia
Gerados em meu ventre dia-a-dia
E, nada em você traz-me comoção


Nasce a tragédia, vem a música passo a passo
Resisto e não me desfaço, mas sei que
Nunca dei um passo que não me comprometesse
E, eu rio do Homem e de suas artes, poesias e templos


Em breve, parirei algo desconhecido
Desconhecido e enorme
Do tamanho de um mamute
Ironia, não há amor que em mim incute


Mesmo um entusiasmo passageiro
Ou uma profunda desilusão
Estou farto de existir e temo a morte
Num ambiente laico busco a compreensão, a boa sorte


E, antes que a tempestade domine o crepúsculo do mediterrâneo
Avistarei Chipre e resistirei ao meu maior naufrágio
O porto de Larnaca trar-me-á de volta à luz


Mas lá nunca me tornarei um verdadeiro poeta
Volto à Paris para encontrar o meu eterno amor
Que se foi quando a Tifo lhe beijou.




*A Paul Verlaine 
(1844-1896).

quarta-feira, junho 01, 2011

Eterna noiva de Prometheu


“O Castelo começou a desmoronar
Adeus, criatura, adeus
Dr. Pretorious não poderá lhe ajudar”
(R.I.P. 1935 – 1935)


Até onde posso chegar?
Preciso lhe dizer algo muito importante...
Sua imagem está gravada em minha mente
Tão soturna, tão branca, tão convincente e desolada

Definitivamente gravada
O estereótipo da garota gótica perfeita
Perco os sentidos diante de ti, Valerie Hobson
Acenda as velas, apague a luz, preciso lhe tocar

Delicadamente costurada à mão, envolta em brancos tecidos
Descanse em paz eterna noiva de Prometheu
Jamais me esquecerei de sua expressão facial
Vamos iniciar a sessão...
De cinema, em 1935 uma continuação da Universal.



*A Valerie Hobson 
(14/04/1917 – 13/11/1998).

quinta-feira, abril 21, 2011

O envelhecido ator das madrugadas



Houve um tempo em que dormia tarde para vê-lo. Crescia um jovem nesse admirável velho mundo. Encantado com suas velhas criaturas imundas

Até que... Banido foi de minha presença. Arrancaram-nos um do outro sem maiores explicações

A sentença, Grade de horário, nova programação: “A emissora não se responsabiliza por eventuais alterações sem prévio aviso”. E a madrugada mais preta e branca ficou

Oh, querido velho artista, como vão as suas dores? Em qual companhia brilhará? Serás novamente protagonista? Qual será, na Hammer, o cast de novos atores?

Como está Sua Majestade?. Sente-se bem, meu Rei? Tirei-o do túmulo e, agora... És tão injusto comigo

Acaso, sente-se feliz? Por atar-me nessa poltrona fumegante? As lágrimas queimam o meu rosto. As chamas não...

... Queimam minhas melhores intenções. Preste atenção, eu disse: “Minhas melhores intenções”. Trouxeram-me o maior dos males terrenos

Irrompam-se agora, todo o ódio e o desprezo. Só assim, retiro-me de tua presença, antes. Fique mais um pouco, fique com as batidas do meu coração. Fique e ouça minha máxima oração

Fique e ouça os rugidos das gárgulas. E eles vêm do telhado gótico do teatro abandonado. Tolas estátuas de pedras e seus lodos verdes. Serão queimadas vivas, há fogo por todo lado

Se eu tivesse olhos para guiá-las. E língua para dirigi-las. Salva-las-ia; fingiria um novo ato. Que se chamaria: “A melancolia de Maria”

Eu sei quando se vive e quando se morre; basta cobrir com um lençol. O suposto corpo e, ficamos tão mortos quanto a Lua que brilha sobre a Terra. Entretanto, devemos admitir, sem exageros. Ela sabe muito bem como usar a luz do Sol.
















*A Vincent Price: 27/maio/1911 - 25/outubro/1993.

terça-feira, julho 06, 2010

Roger, o substituto


Não pense que eu serei o substituto
Sou muito diferente do seu último cara
Uso sapatos de couro e ternos Armani
Não faço questão de parecer jovial


Vocês fizeram um belo par
Todos diziam que formavam um simpático casal
Eu sou antiquado e não conto mentiras
Gosto de ficar em casa lendo, do jornal, só as tiras


Admita você tem um problema real
Não sabe ficar sozinha, disso eu tenho muita pena
Seu lema?
Amar intensamente e descartar; novamente começar a flertar...


Gasta seu tempo procurando
Mas nunca encontra o homem certo
Decerto, é exigente demais
Um pé atrás; é tudo o que consigo


Seguirei os conselhos de minha mãe
Vamos parar por aqui, já que é um caso tão efêmero
Substitua os vícios, os temores, as afetações
Os amores, seus artifícios e as dissimulações.




*A Roger Daltrey
(01/03/1944). 
Vocalista da banda inglesa 
The Who.

sexta-feira, junho 18, 2010

R.I.P. José Saramago


"Hoje, o mundo ficou um pouco mais cego"


Tuas ficções me contaram muito
Nutriram minhas dúvidas, fizeram-se plenas
Irromperam-me num ritual de passagem.

Precisei fingir para descobrir o que
O que realmente eram...
E fingiam me contar a verdade.








*A José de Sousa Saramago, (16/11/1922 — 18/06/2010).
 Escritor e Prêmio Nobel de Literatura em 1998.

segunda-feira, maio 17, 2010

Mais um na sua estante


Ah não!
Está acontecendo de novo
Apaixonei-me por uma garota de cabelos ondulados
Ela só procura novidades e ama o mundo
E, eu sei que isso é coisa passageira
Porém, sempre me iludo com essas besteiras


Ela acaba de aparecer com os cabelos vermelhos
Eu e Nosfa ficamos boquiabertos
Ele me olha e indaga:
Sente-se bem Lou?
Acho que sim
Mas meu coração avançou para a garganta


Vejo-a sentando à beira do rio
Abrindo um livro, se deitando na grama
Essa cena me traz um arrepio
Gostaria de ser aquele livro
Estar em suas mãos...
... Paciência


Passaria horas com ela me tateando
Me descobrindo, absorvendo minha essência
E, pelas páginas, lentamente desdobrando-me
Mas, depois de lido, da sua vida ser banido
Vou para a estante para em instantes, preterido
Fazer parte do seu acervo de exemplares esquecidos.










*A Meg White
(10/12/1974).

sexta-feira, maio 14, 2010

Não se ensinam coisas novas a um macaco velho




Nasci para dominar!
O meu objetivo é a conquista.
Desista Spectreman! Desista!

Não se ensinam coisas novas...
A um velho macaco alienígena!

O mal que causei será sempre lembrado?
E, de que me serviria fazer o bem?
A morte é a única solução!
Desista Spectreman!


*Trecho extraído do episódio: 
A morte do Dr Gori (Spectreman).


*Fonte: Youtube

sábado, dezembro 05, 2009

O espelho de Quintana



O louco dos loucos, sonhador dos sonhadores
O tolo dos tolos que ama a poesia dos outros
Alter-ego que envelhece sem apodrecimento da alma
Passa a vida sabendo
Que
Um dia, a velhice chega
Chega, num susto sereno, chega
E continua pensando
Que viverá muito
Morando em hotéis
Para ter a sensação
Da solidão coletiva
E adorar ainda mais o tempo da vida
Como o enfermo que
Em vez de combater a doença
“Busca torná-la ainda mais comprida”.







*Com a ajuda de Mario Quintana 
e seu Espelho Mágico (1951).