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terça-feira, julho 02, 2013

Piano de blues


“Voulez-vous couchez avec moi ce soir?
Vous ne comprenez pas?
Ah, quelle dommage!”
(Alexandre Dumas Filho: A dama das camélias, 1848)




Um fogo, e ela cai por cima de si própria
Stella, esta canção vai para aquela que eu amo
Ah minha irmã... Ouça o piano de blues tocar
Dedico esta para aquela que eu abandonei...



... Uma estrela para ocupar meu tempo, me redimir

Me deixe olhar para você... Para eu me lembrar de Belle Reve
Mas aquilo foi apenas um sonho...
... Um sonho que Blanche DuBois insistiu em sonhar



Aqui, sou eu no centro das atenções nesse apartamento minúsculo!

Qual a sua ocupação, você vai se aboletar aqui com a gente?
Sou tão nova quanto a neve no alto das montanhas, Stanley
E dou aulas de Língua inglesa e Literatura em Laurel, estou em férias de verão


Lá também há fantasmas que povoam minha mente
Eles gemem, posso ouvi-los arrastando correntes, pesando o meu coração
Agora você está em New Orleans, ouça a polca ecoar
Perdi tudo minha irmã, perdi Belle Reve e não tenho aonde morar


Um piano toca... Longe, melancólico, ecoando pela cidade
Sensibilidade e brutalidade num mundo rude de sombras sinistras
Uma varsoviana distorcida faz emanar a loucura, ruídos da selva reverberam
Nesse bonde chamado desejo não há lugar para o refinamento que me deram.






*Baseado em “Um bonde chamado desejo” (1947), 
Tennessee Williams.

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Mestre Edu tocava violão



   "Eu sei mais sobre você
                                                                   Do que você mesmo"
                                                                              (Lou James)



Mestre Edu tocava o violão
E tocava-o bem, mesmo sem saber tocá-lo
Tocava-o com a mão direita e
Surpreendendo a si mesmo e a nós, irmãos, foi longe demais.


Nas canções, com o seu desejo de tocar, de fazer rock
Rock sem guitarras, sem aranhas de Marte...
Sem inflar o seu ego, coisas insanas
À parte, nos tornamos a banda do Mestre.


Ele nunca cantou bem, como seu irmão
Mas, bagunçava os cabelos e deixava a barba rolar
Isso era-lhe peculiar, e o seu cachorro Ziggy, com sua força descomunal....


Conduzia sua mãe pelo pescoço, no frequente passeio matinal
A luz da cerveja refletia a mosca que vagava tentando pousar
Em seu prato feito, seu teclado torto, de porcelana...
Nos seus dedos delicados, em sua sala de estar, ficavam jogadas, as havaianas.

Ele nunca cantou bem, assim como seu irmão
Mas, bagunçava os cabelos e deixava a barba rolar
Isso era-lhe peculiar, e o seu cachorro Ziggy, com sua força descomunal....

Levava sua mãe... Num passeio matinal.



*Ao grande irmão:
Eduardo Medeiros
(19/07/1982)




domingo, dezembro 11, 2011

Consulta com o Dr. Nietzsche


"Estar cego não é uma miséria
Não ser capaz de suportar a cegueira
É a miséria"
(John Milton)





Meu nome é Nietzsche
Friedrich Nietzsche
E sou o médico
Vim trazer-lhe a cura


Olhe para dentro de si
Quanto adquiriu de cultura?
Consegue suportar o desespero?
Acrescente uma pitada a cada dia, em desiguais proporções


Como um tempero, e lembre-se, me ouça:
O tratamento é longo e doloroso, sem ópio
Será preciso encontrar muita força
Para conseguir ajudar a si próprio


Só assim, meu pupilo, conseguirá levar o espírito do espírito
Para as futuras gerações e já não é mais tão menino
Descobriste nesse árido caminho
Que a histeria não é só da alma feminina


Quem não sabe escutar
Pouco acrescenta ao falar
E, para terminar...


Nunca mais cante aquelas antigas canções de ninar
Pois, a recompensa da morte
Consiste em nunca mais chorar



*A Friedrich Wilhelm Nietzsche
(15/10/1844 — 25/08/1900).

quinta-feira, outubro 20, 2011

O muro que respira (me sufoca)


“Minh’ alma
Que não pertence a essa sombra que tomba
Nunca mais será desenterrada”
(O corvo: Edgar Alan Poe)



Naquela noite, uma voz negra e doce sussurrou em meus ouvidos como asas de morcego
Imerso num sonho claustrofobicamente mudo e fechado
Não havia formas sensatas de comunicação
E, eu não podia indagar porque fizeram aquilo comigo


Fui emparedado, cimentado vivo
Assim como um tijolo fixado
Fixado fui nessa parede de concreto
Onde não há outro sinal orgânico de vida


Só há decadência e loucura nesse muro maldito
Que divide o espaço entre o dentro e o fora
Agora, que acabei de acordar (do sonho)
Poe se virou para mim, ele esteve o tempo todo ao meu lado


E sorrindo de lábios fechados não me dirigiu a palavra
Mas, eu entendi o que o mórbido poeta quis me mostrar
Arrancar-me-ão a alma da matéria, meu corpo terei que abandonar
Sem conseguir imaginar, descobri que meu sepultamento está a chegar


*A Tim Burton
*Baseado em "O barril de Amontillado" de Edgar Allan Poe.

quarta-feira, agosto 24, 2011

O castigo do escritor

Fui acometido por um enorme e trágico
Enorme e trágico castigo
E agora, preciso escolher...


... Entre nunca mais narrar e escrever
Ou ter os olhos arrancados
E para sempre outro livro jamais poder ler


Percebo então, que a sina do escritor
Não é somente narrar e escrever
Isso, por sorte é fugir do inevitável, tentar escapar da morte


A sina do escritor, na verdade
É ler e reler, amar os clássicos e por eles se derreter
Está decidido, tomem-me a pena e não mais voltarei a escrever!


Deixo como testamento...
... Um romance pela metade e algumas poesias inacabadas
Mas, o meu Ulysses, Dom Quixote, os versos de Pessoa e os relatos de Yourcenar
Serão novamente lidos e degustados até que a ”Desdentada”, um dia, venha me buscar.



*A Rosa Montero

segunda-feira, julho 05, 2010

Stella, a mergulhadora




Quando ela caminhava pelas ruas
Sempre encontrava um bueiro
As pessoas a observam, esperando-a cair


E ela, outra vez, caía em desespero
Tornou-se mergulhadora e ficava sempre por baixo
As vezes que tentou fugir dessa condição
Somente em direção ao mar tomava seu rumo


Brincávamos de amar e ela ia fundo
Havia muito prazer quando lhe acariciava as fendas
E, ela sempre cai... Sem vergonha de cair novamente
Sua última vez foi ao escorregar nas goteiras do teto
Deslizou em direção ao subsolo, encontrou as tubulações
Desde então, morando no fundo do mar, ela alimenta os tubarões.



*Baseado em: 
"Stella was a diver and she's always down", 
da banda nova-iorquina 
Interpol.

quarta-feira, junho 10, 2009

Clown, o palhaço - Retinas Queimadas






O senhor do riso
Perdeu sua graça
Desesperadamente
Caiu em desgraça.

Ninguém mais ri
Das suas gafes
Palhaçadas sem graça
Acabaram às traças.

Astro circense
De repente...
Num passado recente
Atração decadente.


Clown, Clown, o palhaço!

Não há mais riso
Futuro impreciso
Não há mais circo
Não há mais público.

Seu show acabou
Nunca mais, aplausos ouviu
Pusilânime, se entregou
Quando seu mundo ruiu.
Clown, Clown, o palhaço!


O poeta narra o fato
Jamais lhe anuiu
A perda do estrelato
Da fama que se extinguiu.


Clown, Clown, o palhaço!
Lou, Lou... O sem graça!





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A VERSÃO LEGENDADA: Clown, o palhaço