quinta-feira, agosto 23, 2012

O castelo de Mr. F.K.


"Era noite já
                                                                      Quando K. chegou."
                                                                   (O Castelo, F. Kafka)


Imersa entre neve, bruma e treva
A aldeia de Mr. F.K. permanecia lá, imutável
Sobre a ponte, a olhá-la se deteve
Por longos minutos absteve-se de adentrá-la

De rever suas ruas e o Castelo
Olhava para o vazio, procurava um albergue
Entregue, arrastou-se tarde da noite pelas fracas velas e
Surpreendeu o senhorio por ser hóspede tão tardio

Adormeceu... De súbito, o Criador lhe apareceu
Estremeceu diante do conhecedor das faltas
Pôs preço aos seus pecados requintados
Eis aqui, um drama Kafkaniano bem delineado

Repete-se a trama, contingência
Pecado e tentação, sua herança
Conflito de personagens
Remete-se ao homem, a demência

Suprema, do Criador em ação
Recriar-se, da Criação, a imagem
Comparado à grandeza perdida
Aos mistérios distorcidos

Em instantes, encontra sua função no mundo
Pai, mãe e amantes vencidos
Frustrações inconstantes flamejantes
Amor, ética da religião e bons costumes; febris e delirantes

Arrebatando-lhe do estilo pagão e cético
Sucumbindo diante dos seus nobres ideais
Lei imutável da vida e da morte, és novo Édipo   
Em 1922, lia para os amigos em congruência

As notícias dos jornais sem muita insistência
Foram fatais, os sonhos que ocultaram a existência
E, se permitia no Castelo de Franz Kafka
O roteiro do estupendo espetáculo de clemência



*Baseado em: O Castelo (1926) de Franz Kafka.

segunda-feira, julho 02, 2012

O prêmio menor


“Ah, isso me faz amar-te mais e mais”
(Núbia Poison)



Em seu quarto, mergulho confiante na escuridão
Nela, não sinto medo e você me chama de “o servo favorito”
Que sabe como amarrotar os seus lençóis
Que perde a cabeça entre suas coxas macias


E, coberto de regalias, faço...
Da inocência, um prêmio e de joelhos me apóio numa promessa
Para levantá-lo; e erguer o prêmio menor sobre a cabeça
Tão leve, quebro o espelho e tento, nele, me reconstruir


Um caco, um toque, uma respiração, um suspiro
Sinta o calor... Sente-me? Toque-me!
Seus braços queimam-me, seus olhos estão flamejando
Nosso tempo acabando, por causa dos erros, dos desaforos, das mentiras


Elas ainda pairam por aqui, veja-as...
... Nesse ponto, no seu local preferido
Seu reflexo, meu reflexo refletido em nossa pele
A força das palavras nos ferindo


Elas pingam como suor, escorrem pelas frestas
Na hora do chá você se aproximou...
... E me mostrou outra tatuagem
Eram dois cavalos negros conduzindo uma bela carruagem


O que esse desenho significa para mim?
Para você, nos encontraremos as 15h00, amanhã?
Traga-me frutas, morangos, uvas, castanhas e maçãs


E gostaria que, novamente, os lençóis fossem trocados
A cada encontro, novos, limpos, preparados
O cheiro dos lençóis limpos deixa-me, ainda mais, por ti, apaixonado



*Baseado em “In your room” canção do Depeche Mode.
*A Dave Gahan.

sábado, junho 02, 2012

A mão que escreve

Essa é minha maldição
Escrevo textos para outrem
Dou, a sua persona, toda a convicção
A sabedoria, o discernimento, as palavras certas e muita ação
Interfiro na realidade; cedo ao homem à capacidade de criação
De ser menos medíocre abandonando os próprios argumentos
Um velho estadista foi criar em um dia escuro, às vésperas
Da posse do céu, faltou-lhe as palavras, caiu-lhe o véu
...Certo como a noite ficou rubra num clarão
Um "Ghost writer", então lhe surgiu como vespa, pois não
Para domar e sugar rebanhos de olhos vermelhos numa premonição
Uma atividade óculo-manual sob encomenda, canetas e folhas ásperas otimizam
a tração
Da nuvem ilusória que é convencer e dar razão
Cavalheiros, editores e escritores fantasmas brindarão
O nascimento do mais novo best seller
Suas tiragens ainda estavam em fogo brando e já culminam no topo das listas dos mais vendidos
Seus argumentos eram feitos de outras experiências
Ambivalências, axiomas; como interpretar todos esses relatos perdidos?
Suas penas eram pretas e brilhantes e sua respiração ofegante
Só um Prêmio Nobel de literatura poderia senti-la nesse instante
Um relâmpago de medo atravessou a capa dura
Enquanto trovejou através do céu da editora
Os pingos molharam aquelas páginas, por ele, escritas
Ele viu e não acenou aos cavalheiros que vinham em busca de dedicatórias
Não os assinava e nem os dedicava, resignava
Dolorosamente emitiu gritos de tristeza vendo a fila aumentar satisfeita
Os louros da fama, o reconhecimento e a glória nunca serão dele
Sua cara de desolação, suas olheiras, sua camisa encharcada de suor, são...
... As marcas que impedem-no de alcançar o sucesso
Porque começarão uma nova história, doutro rosto
Que para sempre terá um nível acima do céu, novo desgosto
Nos depoimentos artificiais da descoberta do fogo e da invenção da roda
Ele o induz à organização de capítulos com lamentos programados
Enquanto os ávidos por leituras e os bibliômanos galopam
Galopam ao sol e jogam polo sobre lindos cavalos ébanos
Ouviu-se um chamado, era seu nome, quem o encontrará em meio a multidão?
Um conselho para ti...
... Se você quiser
Conservar sua alma livre do inferno
Abandone essa feira internacional do livro em Parati
Dê uma conclusão razoável para a obra encomendada, sare os feridos
Mude suas maneiras de ser o melhor "Gost-writer" da editora mais famosa do país
Ou conosco você retornará para tentar cativar outros rebanhos
Apagará linha por linha e me fará  novos capítulos à sombra de um lider de vendagens infeliz e incapaz de amar como os humanos.





*Eu sou um gost-writer de mim mesmo.

sábado, maio 05, 2012

Eu, sob meu domínio


“O que o ser humano mais aspira
É tornar-se ser humano”
(Clarice Lispector)



Eu, Clarice, lembro-me
Como se fosse um desvio
O encontro que tive
Com Sartre, em janeiro, no Rio


Disse-me o filósofo:
“O horror sou eu, diante das coisas”


Seu olhar me perturbava, enquanto falava
Desconfortava-me o cachimbo
Sentia-me escrava do anteontem
Um espectro disforme no limbo


Quando virá a alforria?
Depois do crepúsculo, raso e impassível?
Diante da alvorada nova jornada se inicia
Organizando-me entre frases, sendo hermética e acessível


De súbito, meu corpo torna-se uma extensão dos sentidos
Alcanço o espaço e aumento minha capacidade
Sequencia desordenada numa dimensão em superfície
Com sinceridade, falo da vista, sou uma artífice


Ah, a dor...
... Emana
Diariamente após as 17h00, emana
A dor do apontamento


Sou humana, não quero ser manuseada
Antes, como um lápis apontado
Descobriram minha essência delicada
Essência das cores que possuo, meu legado


Era planta baixa desenhada pelas próprias mãos
Reconstruí-me entre linhas retas e paralelas
Traços na superfície horizontal edificada tornaram-se constelação
Mãos corretas, faixas grafitadas cobrem minhas janelas
... Morro em vão?



*A Clarice Lispector e Jean Paul Sartre.

domingo, abril 08, 2012

A peleja de Douglas Sanoj com David Bowie na Cidade dos Miguéis



Prenderam alguns revolucionários
Mas, a revolução continua, confirma a facção
Nessas ruas que levam à praça central, explode a indignação dos que querem mudanças
Saia daí camarada, afinal, política nunca foi o seu forte


Eu estou tão doente agora, por sorte...
... Verme, porque você vem aqui me perturbar?
E, porque você fica por aí quando eu te chamo?
Sinto muito meu amigo, pelas cobranças, tantas


Desconfianças, eu; eu desejo que você possa me ouvir
Como os golfinhos e os tubarões, como os golfinhos podem nadar
Em meio aos tubarões sem serem atacados
Embora nada, nada possa mantê-los separados


Do mesmo meio aquático; nós podemos combatê-los?
Utizando-nos da arte, poderemos ser heróis por um dia?
E eu serei um rei, um astro, um anônimo?
E você, você será sempre meu amigo, amigo do rei


E ninguém poderá nos tirar isto, antônimos
Jamais seremos expulsos de Pasárgada?
Ei de desafiar o mainstream e sua rudeza
Significará falhas de comportamento e muita destreza


Beberei em sua taça para celebrar esse momento
Porque nós estamos condenados à essa vida sem nobreza?
Isso é um fato; sim, também estamos apaixonados pelos dentes do Jonnhy Rotten
E vamos nos casar, cada um na sua cidade, seremos padrinhos recíprocos, "wanteds"


Ainda assim, nada nos manterá separados por muito tempo
Poderíamos roubar uns instantes de nossas garotas?
Nos encontrarmos para podermos ser heróis em plena segunda-feira
Originais, concretizaremos o plano, um de cada vez ou simultaneamente?


O que diríamos na hora da transformação?
Da mente, avante, vamos em frente!
Desejo que você possa mergulhar na imensidão...
... Um homem no fundo, dominando os confins dos oceanos


Eu, demasiado humano, podendo correr e saltar as montanhas
Pelo que estavámos esperando, pelos céticos?
Tintos finos, inimigos alados e seus raios elétricos?
E nosso tempo corre numa outra velocidade, quebra-nos a taça


Nessa cidade de luz selvagem, minúscula e promíscua com um milhão de ruas
Sem perspectivas toda vez que eu penso em percorrê-las
Parecia que o gosto amargo vinha antes da ação das putas nuas
Há Vicious, há Dylan, há Erasmo e não éramos tão doces como parecíamos


Insistíamos e vivíamos essa fraterna relação à frente do espelho acima do balcão
Negro e me deparei comigo mesmo, entretanto eu nunca peguei suas rápidas idéias
Nem um olhar minucioso para identificar os morféticos falsificadores
Eu estou perdendo velocidade para fazer aquela prova da virada


Carreiras, mudança de comportamento
Já não sei para onde vou...
... Encare o estranho som que vem do Bistrô Del Monte
São os Retinas Queimadas, o Mr. Klove ou talvez Tião Waits?


Não queira ser influenciado pelo que não te agrada
In Vinu Veritas, basta se reinventar frequentemente e ser
O que o tempo quizer que seja, invariavelmente
Mas, eu não posso voltar a ser o equivalente a você


Constantemente, essas ondulações mudam o tamanho da canção
Nunca deixaremos o fluxo de percepção esfriar nossa parca noção
E assim, só assim os dias flutuarão por nossos olhares empíricos
Naquele bar temático eles se parecem os mesmos dias de sempre


Fatídicos dias, sempre os mesmos dias, como crianças que correm no mesmo parque, sempre
A esmo... Sempre!
Porque elas vivem tentando mudar os próprios mundos?
E são imunes as consultas com aquele gordo doutor de jaleco imundo



Branco imundo, elas estão bastante atentas aos medicamentos manipulados
Não lhes digam para crescerem, fora disto só a dor e decepção
Não lhes digam para não ouvirem aquele disco do David Bowie
Onde está a vergonha que você nos trouxe ainda à pouco?


Até nossos pescoços se atolaram nisso
O tempo poderá lhe fazer mudar?
Mas você não pode mudar o tempo
Estranha fascinação, me fascinando, lhe fascinando


Mídia em MP3 tocando... Mudanças estão levando nossos discos, nossas fitas
Nunca imaginei passar pelo que estou passando
Olhe brevemente, todos nós envelhecemos
E, ainda posso me lembrar que fiquei parado nesse muro


Esperando aquele ciclista empoeirado voltar
Voltar e trazer a encomenda, aquelas armas apontando sobre nossas cabeças
E nós beijamos a encomenda, nada poderá inibir a ansiedade
A vergonha está do outro lado, nós poderemos combatê-la?


Reitero, podemos ser heróis por um dia também na terça-feira
Podemos ser heróis, sim, podemos ser heróis na quarta e na quinta feira!
Antes de descobrirmos que somos nada, e nada nos ajudará na sexta e nem no sábado
Talvez estejamos mentindo, então é melhor você desligar seu domingo


Aquele vídeo... “Diamond Dogs” que tanto te irrita
Se isso lhe deixar mais seguro, falaremos mal do David Bowie
Você só vem aqui para me dizer coisas sobre o Bruce Springsteen
Dizer-me que preciso ouvir “I wanna be your dog”, erguer o braço e dizer: Sim!


Que Iggy Pop é sensacional, que eu preciso conhecer sua obra com os Stoogs
Que descobriu um filme sobre Pink Floyd e o Mágico de Oz no youtube
Mas, você sabe muito bem que as músicas do Morphine e do Interpol tornam as coisas mais fáceis para mim
Ah meu amigo, você conhece minhas fraquezas musicais...


... Entre as quais, venha e não me pergunte sobre os sons antigos e aqueles filmes em P & B
Que eu lhe presenteei e você nunca os assistiu
Perda de tempo, não era a prioridade do momento?
Azul, cinza, verde e vermelho colorem meu “Jardim elétrico”


E essas são as cores do meu quarto, onde eu vou viver o azul marinho e o azul celeste
Lembra-te daquele cego esquálido, o mesmo que desenhou aqueles ciprestes?
Impressionista, desenha todo dia os mesmos ciprestes
Afinal, já não há mais nada para fazer, nada para dizer, inconteste


Agora, montador de móveis, azuis marinho, azuis celeste... Azuis atrozes
Ficarei sentado a esperar pelo presente sonoro que vem pelo correio
E a imagem, eu vou cantá-la pelo passado e pelo futuro, pelo hoje
Da minha visão, num Gol vermelho e da tua voz em devaneio


Companheiro, dentro da minha cabeça, perambularei com minha solidão
A sós, você não se pergunta às vezes sobre o som, o olfato, a visão e a audição?
Você é o único que me telefona com os cinco sentidos, pois não...
Alô... Porque você me manda torpedos tão tolos, mas cheio de significados e simbologias?


Sinto muito, minhas aspirinas acabaram, eis a dor...
... Quando você vier aqui, pedirei desculpas por
Não estar à espera, as coisas ficaram difíceis para mim
O som que me mostrou invadiu o meu quarto, agora o toco para ler o meu diário poético


Era só para ler e ver todas as coisas que você já sabia na prática
Que eu tinha escrito sobre você em meio à tantas ilustrações
Eu estou tão doente agora que vivo tendo alucinações
Mesmo durante o dia, as mesmas e velhas alucinações pragmáticas...




*Douglas Sanoj é uma personagem fictícia do romance 
"Vermelhos como chama".

segunda-feira, abril 02, 2012

Onde estão as chaves?



"Sim ou não?
Essa pergunta surgiu-me de chofre no sono profundo
E acordou-me"
(Graciliano Ramos: Insônia) 




Penso em matéria e morte
Mistura e separação...
... Benção, azar e sorte


Construir uma casa ao norte
Que me servirá por uma década
E, passo a perceber os que constroem pela primeira vez


Reminiscências inéditas permeiam esse lugar
Preenchem meu céu, trazem-me desabafo
Em desacato, dos fatos vulgares, tiro sarro


Acabei de chegar...
... E preciso entrar
Mas, percebo e constato
Que deixei as chaves, num outro lugar.



*A Graciliano Ramos de Oliveira (27/10/1892 — 20/03/1953) 

quinta-feira, março 22, 2012

Sally, o falsário



Seu número, Salomon Sorowitsch, será 75.517
Pilantra charmoso, um artista da cópia
O Rei dos falsários!
A polícia de Berlim sente-se honrada em prendê-lo


Um judeu russo capitalista
Nós conhecemos sua origem e reputação
Dar-lhe-emos a reclusão, mas não o ócio
Trabalhará para nós na prisão


O plano chama-se “Operação Bernardo”
É a execução de uma fraude perfeita, vá escutando...
... Emitiremos grandes quantidades de notas falsas
E nossa máquina de guerra continuará funcionando


Vocês são uns presunçosos!
Acham que podem ir adiante com esse plano tolo?
Os europeus perceberão, em breve, toda essa farsa alemã
E eu não trabalho com quem não fatia o seu bolo


...


Estou mofando nessa cela fria enquanto os alemães consomem
Consomem tudo feito formigas, consomem
A logística energética e o gasto de combustível são enormes
E Hitler sabe que homens bem alimentados são obedientes sob uniformes


Há quanto tempo está aqui, nessa cela, meu jovem?
Há tanto tempo que não sei mais mensurá-lo
Então venha comigo, vamos lutar, tentar sair...
... Desse lugar, ao menos morrer tentando escapar!


Prefiro ser executado a levar um tiro de graça
Ou morrer de inanição, fome e sede são uma enorme desgraça!
Em meio às traças, de que nos adianta sobreviver aqui apodrecendo?


Veja, está amanhecendo, venda sua alma, não seja idiota!
Trabalhe para eles e terá sua liberdade
Beberás e comerás ao lado dele, e poderá se deitar com qualquer mulher dessa cidade




*Baseado em: Os falsários.
Direção: Stefan Ruzowitzky (2007).

sexta-feira, março 16, 2012

Nenhum sonho pode ser mais longo do que um outono






Sem visão para vê-lo aqui de baixo
Da cama, há um louco em minha mente
E ele tem uma idéia, acho...
Bato com a cabeça e ela sangra


Na cabeceira, quando sentia-me bem
As palavras ecoavam dentro de mim
Verdadeiras, ao rastejar eu inalei impurezas
Não consigo encontrar recursos que estaquem o sangramento


Sobre a mesa, para aprender a manusear essa arma
Chamei pelo nome esquecido, arranquei cabelos, penteei-os
Não há alternativas para combater uma calvície provocada?
Pelas mãos, munições para se sentir homem com desejos humanos


Adulto, ser uma criança, ser um velhinho magro
De punir os atos impensados, simples assim...
Porque não pode haver diversão por aqui, nessa cabeça rachada?
Grisalha, não se pode encontrar o caminho para a luz sobre a calçada?


Sozinho não há o que fazer, estou calvo, sem peruca
Por lei, pena na solitária; desejos solitários, vida solitária
Devido ao formato que nos foi apresentada, a cela
Induziu-me à dias escuros e nublados como um hoje eterno


Eu tenho um sentido aguçado, quadrado...
... Ouço o chamado, vindo além das barras de aço
Caem as folhas do telhado, caem os cabelos, há tempos estou aqui
No assoalho, nenhum sonho pode ser mais longo do que um outono


Passo a não levar as coisas tão à sério
É sério, acredite nos meus ouvidos, eles nunca estão prontos para ouvir
Mas, eu ouço o espectro me chamando todas as noites
Nessa frequência inevitável eu o ouço



É verdade, eu ouço sua respiração
Desperto com seu susssurro em meus ouvidos
Seu nome, Todd Rundgren, sinto as batidas do seu coração...
Responda-me, todas as minhas dúvidas, num refrão


A única verdade absoluta, dizia o velho trovador
É a certeza da morte, e nela há que se regozijar
Para alcançar algo supremo e descobrir
Que certamente tudo o que eu quis sempre esteve fora do meu alcance



Suave maré de paixão, agora somente um sonho, amor esquecido...
É, somente um sonho como outro qualquer, esqueço o pavor
Puramente suplico por um barulho, a quebra das vidraças
Estou molhado e já não tenho toalhas para me secar o suor


Faça-me acordar e interromper esse sonho que não se finda
Entorpecido, há diversão sempre que eu desejar, um violão para tocar?
Um homem sozinho não consegue o perdão ao, de joelhos, suplicar e orar?
Eu não posso me manter em penitência eterna?
Devido a forma dos dias de hoje que passam tão rápido
Tenho um sentido afiado, e então, num esforço, acordo e ouço o som do ponteiro metálico


Tic-tac, tic-tac... Tic-tac, tic-tac... Tic-tac, tic-tac...




*A Todd Rundgren (22/06/1948)

quinta-feira, março 01, 2012

Longa ou curta (metragem)


"(...) A freguesia, relutante concorda
                          E a fila se faz interminável, prolongada na escuridão
                             Tumultuosos, os homens raivam e rugem de febre
                           Palavras altas, grossos palavrões, confusos gestos
        Muitos cambaleiam, na mão uma garrafa de cerveja ou cubra libre
          Gelo cantando nas bordas do copo: Helena, Helena, He... lená!"
                         (Trecho de "A noite sem homem" de Orígenes Lessa)




As traças no botequim
Criavam o cenário atrás de mim
À frente do quarto da Marivalda
“Uma guerreira descolada” definia-se assim!


Para mim, abatendo um “Rei-da-Selva” por dia
Contando-me a história de sua sobrevivência, vadia
Mantendo reserva, mantendo distância, encenando a novela do “horário nobre”
Fazendo uma “pecinha”, vasos de barro e pulseiras de cobre...


... Dirigindo um “filminho” com parco orçamento
Uma saga chinesa entre biscoitos da sorte descobriu o budismo
Perdeu-se pela lente de uma vida esnobe
Controla seu destino sob lençóis, com outros se cobre


No ato, seu espírito vaga e foge
Quanto ao corpo, quer conforto de pobre
Interage, acompanha... Nem sempre há colchão


Talvez de pé, quem sabe no chão?
E, em breves minutos se envolve, sem excitação
Mas, deixa as distâncias cada vez mais curtas, competindo com outras putas, a consumação.



*Baseado em: “A noite sem homem” (1976), Orígenes Lessa.

terça-feira, fevereiro 21, 2012

Rua Aurora, 69


Próximo à República, trabalho
Não discrimino, não tenho fobias nem preconceito, trabalho
O que me faz fazer isso?
Trabalho... Na Aurora, todas as noites, trabalho


Sinceramente, sou bonita sem maquiagem?
Sou divertida quando eu faço uma tirada?
Você me entende e me quer, então eu te quero
Antes de me conhecer, já buscava o que eu tinha para lhe oferecer


O lance evoluiu, você me trouxe o que eu buscava, em seu bolso
Da frente, nessa noite, outubro quente
Sem chuva, você será meu namorado por 45 minutos
Até o fim, eu serei sua, sem arrependimentos, só amor programado


Nós podemos transar até morrermos, lado a lado
Voltaremos à juventude, caminharemos abobados
Assim seremos jovens, rolando nesse gramado imaginário?


De novo, você me fez cair em um sonho adolescente
Prepotente, eu fico tão excitada que não conseguirei dormir, essa noite
Sendo-me tão excitante, fica um pouco mais caro, devo-lhe admitir, sorridente


Complacente, você me paga...
E voltará, em breve, novamente