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sábado, fevereiro 04, 2012

Assim falava o caçador


A todo momento só pensei nas gerações que virão...
... Depois
E, a língua não é um corpo morto
A profanação do corpo da língua e sua desfiguração...


... Não pode ser vista como um atentado à vida
Nem a cultura social abomina as gírias nessas plagas
Será que estou apto a combater toda e qualquer forma de barbárie cultural?
Homem especialista, abandonado pelas ninfas na floresta do saber?


Diante da árvore da vida, optei pelo fruto da árvore do conhecimento
Elas são distintas e continuam em minha frente
Volto, então, para mim mesmo
E o que vejo?


... Byron, Nietzsche e Brecht
Ainda tenho sede, devo alimentar a essência, como...
Alguém que tenha pensado e criado no mesmo idioma que o meu
Em minha cabeça ressoa:


Onde estarão agora...
Drummond, Quintana, Pessoa?
Devo agir, preciso viver e respirar o novo século
Navegar e buscar as pegadas que me levarão à presa!


E, de tanto estudar, compreendi que as pegadas que segui
Eram dele, o filósofo máximo, eram de Nietzsche
O prazo se extinguiu diante dos meus olhos
Vem o tempo e seus ponteiros e calendários
Rumarei ainda hoje para bibliotecas desconhecidas
Partindo sem dizer adeus aos ordinários.

 
 
*Homenagem aos mestres que me ensinaram a ler e escrever.

sexta-feira, novembro 11, 2011

Em onze do onze



Morri no primeiro dia do ano onze
Era justamente o primeiro dia em que amei
Algo efêmero, que acabara de acontecer
Intensamente, tive febre e delirei


Suspirei... Subi as velas, naveguei
E, parti cantando “In-A-Gadda-Da-Vida honey...”
Foi-se, se partiu... Em onze do onze
Junto com a febre, o amor, cunhado numa estátua de bronze


Mas, ainda deliro, deliro muito e ao chegar esqueço o pavor
Desde então, decidi não mais amar, só sofrer, sentir dor
Ah, como eu queria ter-me tornado substância rija!
Ser desconfiado como Neruda tendo a firmeza dum pedaço de metal


Ainda não sei ao certo o que sou agora...
... Parte do mar ou um pensamento de George Bernard Shaw?
E, pelo vento que sopra de Minas fui amolado
Amolado por tanto tempo que percebo, deste lado


Direito, estou deixando de existir novamente
Ficarão apenas as coisas que cortei?
Um livro de Drummond na estante?
Aquele mesmo livro que, por egoísmo, não doei?


E, essas coisas...
... Cortarão outras coisas até se desgastarem também
Desgastado estou...
Ah, vou descansar, sim eu vou!



*Homenagem ao “Iron Butterfly”
E sua clássica canção “In-A-Gadda-Da-Vida” (1968)

terça-feira, maio 18, 2010

Poema do corpo



I

Ah, um corpo!
Dê-me...
 O corpo!


II

Que será
Dele?
Meu corpo.



*A Carlos Drummond de Andrade
(31/10/1902 - 17/08/1987).

quinta-feira, março 25, 2010

Gauche na vida







Avião, pastas, rouxinol
Carros, mulheres, muitas gavetas
Futebol, gravatas e anjos tortos
Sombra de guarda-sol nos devotos


Degusto iguarias e
Aprecio conhaques
Sou frequentador de livrarias
Gauche na vida vestindo fraque
Revertendo as palavras, as sintaxes


De repente, espirro e não paro
Tusso e escarro clemência pura
Expurgo os elementos selados, os opostos ambivalentes
Suor, pus e sêmen expulsos em latência
Duma existência em pecados, parca alma, indigência


Meus desejos estão domados, tornaram-se escassos
Perco-me entre bondes por excessos de passos
Em acenos precisos, tomando táxis
Nutrindo esperanças a cada janeiro
Passo o ano inteiro contestando as práxis.



*Homenagem a Carlos Drummond de Andrade
(1902 - 1987).

terça-feira, junho 30, 2009

Subjugar e não ter


LiGAçãO PeriGOSA
FeTiCHISmO
EXIBiçãO viRTuoSA...
FRequeNCia SemANAl
ConsCUpicIênCIa CaRNaL...
LUXúRiA
DoMINAçãO
BOcA
rETInA..
LÍNguA
mãO
CORaÇãO
CaUSA e rAZão...
dESEjOs InTENSoS
NÃo dÁ pRá CONteR
fOtos, FIlmeS, REGistrOS
sUbJUgaR E nÃO tER...e
nA OBSceNIDadE sE peRDEr...



*DeDicadO à DRuMMond e sUa FaSe oBsCEnA.

segunda-feira, junho 29, 2009

No velório, a quadrilha






Ataulfo nunca amou Joana
Era D'arc, nome composto
Para sua surpresa
Em agosto,
Foi trocada por Tereza.
Na incerteza, deixou-se por Miguel
Parecia coisa certa,
Homem fiel
Mas, Miguel não amava ninguém
Joana D'arc permanecera aquém
Ataulfo tinha câncer
Sua próstata retirada
Tereza, tornou-se enfermeira,
Permanecera sua criada
Dessa missão,
Joana fora poupada.
Miguel, tácito, apático
Labutava de noite
Dormia de dia, pouco prático
Joana queria amor
Trocou-o por Cervantes,
Naturalmente, sem pudor.

Os vizinhos a par de tudo
Comentavam, discutiam, acusavam
Casal pecaminoso, trio ardoroso
Moradores do bairro Jardim
Fornicavam, sorriam e gozavam, enfim...
Prazeres como alento,
Alheios aos olhares
Ataulfo não resistiu
Seu corpo frágil sucumbiu
Tereza, num suspiro se esvaiu.
Gente conhecida velava
Joana, Cervantes e Miguel
Ao velório lá estavam
Unidos, separados, envolvidos
Na verdade, casos muito parecidos
Cumprimentaram, sentaram e se foram
Para espanto de todos, escárnio geral
Noutro dia o comentário:
Os três no funeral
Como pode, que indecência?
Onde está nossa moral?
Luxúria,
Volúpia,
Lascívia,
Que pecado capital!



*Baseado no poema: 
"A quadrilha" de Carlos Drummond de Andrade e no filme: 
"Dona Flor e seus 2 maridos", BRA/1977, 
Direção: Bruno Barreto.