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sábado, fevereiro 04, 2012

Assim falava o caçador


A todo momento só pensei nas gerações que virão...
... Depois
E, a língua não é um corpo morto
A profanação do corpo da língua e sua desfiguração...


... Não pode ser vista como um atentado à vida
Nem a cultura social abomina as gírias nessas plagas
Será que estou apto a combater toda e qualquer forma de barbárie cultural?
Homem especialista, abandonado pelas ninfas na floresta do saber?


Diante da árvore da vida, optei pelo fruto da árvore do conhecimento
Elas são distintas e continuam em minha frente
Volto, então, para mim mesmo
E o que vejo?


... Byron, Nietzsche e Brecht
Ainda tenho sede, devo alimentar a essência, como...
Alguém que tenha pensado e criado no mesmo idioma que o meu
Em minha cabeça ressoa:


Onde estarão agora...
Drummond, Quintana, Pessoa?
Devo agir, preciso viver e respirar o novo século
Navegar e buscar as pegadas que me levarão à presa!


E, de tanto estudar, compreendi que as pegadas que segui
Eram dele, o filósofo máximo, eram de Nietzsche
O prazo se extinguiu diante dos meus olhos
Vem o tempo e seus ponteiros e calendários
Rumarei ainda hoje para bibliotecas desconhecidas
Partindo sem dizer adeus aos ordinários.

 
 
*Homenagem aos mestres que me ensinaram a ler e escrever.

quinta-feira, dezembro 22, 2011

Outros eus profundos





Já dizia Pessoa:
“O poeta é um fingidor”
Mente e finge tamanha dor
Em palavra, verso desolador

 
Eu tento compor lamentos
Falo de agruras, dores
Sofrimentos
Mas não minto, incremento

 
Quem os ler senti-los-ão
Cada qual se presume, celebração
Inefável e incólume sensação
Pois, os versos aqui compostos

 
Não confirmo, sabe-se lá
Com quem se identificarão os opostos
Os mitos por mim descritos
São nada e tudo, infinitos...


*Ao poeta Fernando Pessoa
(1888-1935, Lisboa).
*Extraído de: "Teatro da memória".

terça-feira, novembro 02, 2010

O marinheiro no caixão



“Tão verdadeiro e sem sentido nenhum.”
(Fernando Pessoa)




É tarde demais para cantar reminiscências e contemplar os sonhos
Resta-me debruçar sobre a vida morta que trago comigo
Ah, pobre de mim que fui tão feliz outrora...
... Agora, vago nas sombras a embevecer ausências




Enquanto o horizonte se faz negro
A vida me espreita e já não sei em que pensar
Devo aquietar minhas ansiedades que já não são tão verdadeiras?
Daí, percebo uma réstia que se move insistindo em brilhar minhas mãos




O saber é demasiado impreciso para quem o esqueceu
No tempo que aqui fiquei a narrar-lhe meu sonho
A madrugada ganhou cor e se empalideceu
Mas o dia nunca raia para quem contempla o absurdo das horas




Que me importa o dia?






*a Fernando Pessoa 
(13/06/1888 - 30/11/1935).

quarta-feira, setembro 09, 2009

Hepitáfio, o barqueiro



I

Para se sentir grande exagerava como o rio
Moroso, em direção ao mar...
Lembra-te quando ao meu lado se sentavas?
Soltavas minha mão nua e descansava sob a lua
Tocávamos o chão e víamos o rio...
Passar lentamente, silencioso e profundo
Para cada lua um lago a refleti-la
Uma praça colorida, outra rua...
Aonde íamos? 
Vagamente, me recordo
Quando gozávamos em alarido
Cobríamos-nos de folhas, coroava-te com rosas
Achavas-me destemido!


II
Naquela travessia tênue, Hepitáfio era o condutor
Silencioso como o grande rio, só contemplava o nosso amor
Pela razão nos servia, cedia-nos sua embarcação
Desvie-nos dos pântanos, conduza-nos às vinícolas
Acalente nossos prantos, faça-nos esquecer da vida!
Beber várias taças de nosso vinho preferido
Na batalha final derradeira e mortal
Fostes heroína!
Adeus querida Matilde sucumbiste sem fraquejar!
Sempre serás minha, minha intrépida menina 
Denodada a ousar, quantos anjos ainda irá fascinar?

III

Nas brumas celestes encontraste conforto?
Onde dormes? Estás à beira da piscina?
Agasalhaste seu espírito sob o linho nobre?
Ou retornaste a terra?
Nisso nunca acreditaste, nem eu pude acreditar
Nossa doutrina era falha!
Não te quero acima de Prometheu...
Nem abaixo, nem maior e nem menor do que eu
Do que outros novos deuses de cobre!
Fico com as melhores memórias...
De nossa vida incerta repleta de joios e glórias!


IV

Nutra a triste terra que espera a semente
Pacientemente, conheça o Olimpo novamente
Certamente, percebi um choro vaporoso
Ardente, temeroso, lágrima quente
Não toca o solo, Hepitáfio consolador dos descontentes
Outras plateias o verão no cadafalso, sorridentes
Subterfúgio, digressão; por opção vive na mais profunda solidão
Abro os olhos e deixo um recado aos que, em breve, partirão...
Vai-se a matéria... Ficam as idéias como forma de consolação!
Consolação d'alma, nossas almas, das almas que, para sempre às margens do rio, ficarão.






                                        

 *Baseado em textos de Fernando Pessoa. 
         R.I.P. Matilde "Mother" James.