quinta-feira, junho 04, 2009

O encontro do jornalista policial com o líder do bando de gatunos







O sequestrador de tomates
Pediu-me o resgate
Mandou-me as orelhas
Mandou-me flores
Mostrou-me a vida
Modos de cultivar rancores.


Só não contava
Que...
Éramos pobres demais
Você afirma
Não possuir cafezais
Navios no cais
Ações operacionais
Carreira acadêmica
Outros idiomas
Tanto faz.


Mas se expressa
Com sinceridade confessional
Exige-me o que não possuo
Todos perdem no final
Depois do disparo
Houve recuo
São cinco tampinhas
E alguns trocados agora
Lá fora, aquele orelhão
Na porta do bar
Fazia menção
Tocava sempre às 14h00.


Hora do chá, paraíso artificial
Transformando o dia-a-dia
Num inferno real
Na infância era lúdico
Ludibrioso, se tornaste engodo
Quadrinhos ‘Marvel’
Colecionador fervoroso
Em seu quarto a delirar
Sonhava ser herói
Ser imortal
Poder voar
Que volta a vida dá
Hoje ‘Coringa’
Inimigo das leis.


Visitas às conveniências
Sempre depois das seis
O frentista lhe conhece
Sabes que não é freguês
O poeta, em pitadas
Dá tempero aos seus versos
E tu, em camadas
Constrói fama
De aviltante perverso
Aposente-se do crime, tratante
Entre num banco como cliente
Pelo menos uma vez na vida
Já pensou numa história?
Biografia de um ardiloso ciente.


Seria sensacional
Use a memória
Sua vida possui
Toda a carga dramática
E passional
Seus dedos cheiram pólvora
Relaxe o punho
Velhaco
Simples assim
Como traficar tabaco
Metafórica e concisa
Essa é sua vida
Só é honesto consigo mesmo
Mais ninguém.


Diga-me uma coisa
Não sou seu amigo
Mas lhe conheço muito bem
Das páginas dos jornais
Nas notas policiais
Quanto valeu o último?
Já gastou toda grana?
Investiu em carros, imóveis?
Fez orgias, tramas
Mulheres sacanas custam caro
Novas investidas
Novos dramas
Novas camas
Financiou operações?


Percebo que
Suas roupas melhoraram muito
Apodera-se de bens alheios
E, destina-os a terceiros
Biltre patife
Naquele natal
Você não estava tão sozinho, meu rapaz
Lembra-se agora?
Que te refresquei as idéias
És capaz
De lembrar-se daquela cela?
E, mesmo em ascensão
A queda o levará ao chão
Fique atento aos sinais
As investigações
Quem sabe um dia podem ser-lhe fatais.

Mosca na boca - Retinas Queimadas







Venha baby
Corte meu bolo
Com a sua faca
Sempre é melhor chorar na rua
Do que no desabrigo do lar
Oh, coitada, era uma madame
Renome
Ah, seu anel me fez pensar...
O dinheiro me traz sobrenome, venturas, fama
E com você quero vivê-las sem drama

Chame o moribundo
É meu aniversário, envelheço
Bem se vê
Entristeço
Não somos desse mundo
Por causa de você
Querida
Quantas safadezas
Deixei de fazer
Diante da mesa
Uma mosca rodeia
Rodeia e pousa...
Pousa em sua boca.


Venha baby
Corte meu bolo
Com a sua faca...
Com a mosca na boca
O que você diz nunca faz sentido
Que importa?
Quando o telefone toca
A ameaça vem do outro lado
Sem face, sem dó, instigado
Fuja, não há chance!
Enfrentá-lo não está ao alcance
Alcance do perdão
Não olhe para trás, oração...
Estenda as mãos e se entregue
Estava traçado, jaz então
A terra nunca será leve
Experiência fatal
Muito em breve, não sabia
Encontrar-se-ia com o sobrenatural.



*Baseado em:
"Let Me Put My Love into You", AC/DC (1980).
*Baseado no livro de contos: "O Espelho Mágico" de Mário Quintana e no filme "Black Sabbath" (1963), com Boris Karloff e Michèle Mercier.
Direção: Mario Bava.

Assista no Youtube: 
Retinas Queimadas - Mosca na boca

Randy Carneiro, o lutador



"Saiba se dominar e vencer a si mesmo.
Domine os vícios e supere os defeitos."
(anônimo)







Subi nas cordas do ringue,
E saltei firme num golpe final,
Como Randy "o Carneiro”
Personagem que se tornou lenda imortal.

Lutador lúdico, selvagem, enfrenta e suporta a dor.
Construiu sua carreira, uma imagem, mas nunca foi ator, por...
... Inconsequente bobagem, pudor?
Na entrada, os clamores inspiravam, arrepiavam-no!

Na lona, encontrava o paraíso, 
Velhos adversários, mulheres e o que seu dinheiro conseguia comprar.
Nas ruas, desolação, solidão, trapaceiros; em casa desprezo da filha.
No coração compaixão da stripper, na cabeça palavras de auxílio...
"O melhor vinho do mundo é aquele que saberás apreciar no exílio"

Conto com tuas forças, traga-me um fomento...
Oh, cara amiga, clamo-te em lamento!
O coração me trai, sinto cansaço, fadiga.
Caio na lona, me desfaço diante do fã.

Não posso parar, devo continuar.
Seria suspeita, afinal ele é... O único que me respeita!
Tenho grampos pelo corpo, hipnóticos!
Hipnotizados, tem transe, me olham e gritam meu nome!

Escorrem o sangue da vitória no arame farpado!
Acordo prévio com o oponente enroscado, meu alvo dilacerado.
O público grita eufórico, estão em delírio, sinto... Dor!
Fecho o cerco da inspiração, caio de joelhos ao chão.

Desapareço em estradas esburacadas.
Me perco em paisagens desoladas.
Na arena, irrompi a solidão, muitos autógrafos nas calçadas.
 Caneta na mão, sou simpático e não vou recusar uma foto.

Mas, o personagem é trágico e a dor avassaladora!
Pobre coração, vida tentadora, no último instante...
A imobilização combinada não encaixou.
O público... Respirou, meu oponente.

Olhando-me com olhar de cólera:
Não demora Carneiro!, aconteceu alguma coisa?
Seja homem, reconheça, vou afrouxar sua coleira.
Estamos no derradeiro ato, não chore, suplique; não pereça.

Implore ao público e instigue os fãs, provoque-os e termine essa luta!
Não espere o ontem, lembre-se daqueles golpes ensaiados...
Dê-me seu máximo, vá além; as luzes se apagarão se fores tenaz.
Ela esteve contigo?

Procurá-la-ia depois do embate?
Pediu que não o fizesse, que no ringue não entrasse?
Não era necessário que provasse, não lutasse, relevasse essa proposta?
Provou para si mesmo que não aguentaria?

Afinal só sabia lutar, nada mais.
Amigos... Amantes e filha perdeste!
Perdeste todas as discussões com a sua filha.
Só no combate conquistava a glória dos rivais!

Fama, renome... Pôster na parede e virtude no labor.
Inspiração, clamor... Ufania e admiração!
Triunfos na carreira de um lutador
Foram tempos de glória e uma vida de exaltação!

Nos 80’s fostes o melhor da década.
Foram brilhantes os vinte anos de uma época.
Época de uma lenda que hoje não existe mais. 
Sombra do passado, lutador decadente, envelhecido, enfartado!





*Dedicado a Randy "Carneiro" Robinson, personagem do filme: 
“O lutador - The Wrestler” (2008)
com Mickey Rourke e dirigido por Darren Aronofsky.

quarta-feira, junho 03, 2009

Quase erro (ode a Mary Shelley) - Retinas Queimadas





Aquela menina nasceu
Filha de Golding se concebeu
Sua mãe do parto floresceu
E com Shelley se irrompeu.


O pai, resignado foi-se então
O padrasto o sobrenome deu-a senão
Sua mãe a iniciou na escrita
E na juventude se fez mulher aflita.


No castelo de Byron as férias passou
E, num lampejo a estória criou
Um terror fantástico
Que pelo mundo se consumou.


A obra, ao pai dedicou
Mas o sobrenome do padrasto herdou
Escrevia desde a infância, a ficção
Viveu no campo com forte obsessão.


Criar um conto, criar uma estória
Num quase erro, numa memória
Lembrou de fantasmas, lembrou do inicio
E na voraz escrita, uma obra no solstício.


A noite era sombria, lúgubre, mortal
Do sonho acordado, uma febre fatal
Desejou a criação feita com afeição
Que lhes tragam dor, dor e perdição.


O monstro sem nome
Herdou o seu do criador
Nesse quase erro
Todo mundo é entendedor.


Mary Shelley, saia do castelo
Mary Shelley, volte para casa
Nem Hamlet, nem Otelo
Fazem sombra à tuas asas.


O monstro sem nome
Herdou o seu do criador
Nesse quase erro
Todo mundo é entendedor.
Mary Shelley, saia do castelo
Mary Shelley, volte para casa
Nem Hamlet, nem Otelo
Fazem sombra à tuas asas.

"Ela plantara as sementes que tinha nas mãos. Não outras, só essas" 
(Clarice Lispector)

*Homenagem a Mary Shelley, escritora do romance gótico 
"Frankenstein" (1831).

Acesse RETINAS QUEIMADAS em: Canal no Youtube

A dentista e o verme



A chuva batia na vidraça
E a jovem dentista sua jornada começava
Um verme pelo chão rastejava
Uma goteira pelo teto respingava

Um cliente no consultório adentrava...
Pele pálida, blusa molhada, boca reta arroxeada
Diante dos seus olhos, horror e repulsa, eram notórios!
Na insensatez permitia dentes pálidos, coberto pelo tártaro

Halitose, cáries, uma boca abandonada e a dentista...
Superava a timidez, administrava  a situação com engodo
Num instante, um sonho, um devaneio, uma ilusão
Imaginando que beijava aquela boca em podridão!

Abraçava-o, tocava os seus lábios com as mãos
Sentia êxtase, sentia nojo, não se aguentava, ardia em paixão!
Diante da ilusão cultivada... viu o verme...
Que se alinhava no jaleco estendido na bancada!

Um instante... Muita dor, viu gotas vermelhas escorrendo...
Acordou em sobressalto, tomada de terror!
Seu cliente observava sua ação como um mérito!
Como uma paisagem exterior, gotas de suor molhavam seu suéter.

Bater de dentes e tremor, a dentista, cambaleava pelo impacto
Caindo fez barulho, tornara-se ser inferior, acoado
Não aceitou o destino, questionou a profissão.
Abriu as portas e correu, a rua foi a solução!

O cliente a seguiu... A perseguiu e encontrou virando a esquina
Atrás de um carro e se virou para ela, nervos e músculos fizeram o trabalho
Pelas mãos do lacaio a pobre sucumbia naquela calçada fria
O verme de alma vazia rastejava sobre o jaleco que, no consultório, jazia
Enquanto as gotas que escorriam espalhavam o perdão de um crime a luz do dia!

O Horla, vampiro invisível: Retinas Queimadas











"Será que uma das teclas imperceptíveis do teclado cerebral 
Não se encontra paralisada?”

Oito de maio
Deitado na relva
Diante da casa
Da casa que cresci

A flor se rompia
Flutuava no ar
Em meio a visão
Pensei: alucinação!

O que há de espantoso?
Nada de novo
Nunca vi o vento
Nem eletricidade, nem magneto

O que há séculos foi pressentido
Temido, anunciado
O medo do invisível
Agora chegou

De todas as lendas Fadas, bruxas e duendes
Eram dele que falavam
Vampiro invisível

O Horla
O Horla
O brometo não faz efeito
Água e leite
Respiração como alimento
Só as duchas, amenizam o sofrimento!

O Horla
O Horla
O Horla
O Horla



Conosco o rock é tosco!
Baseado na obra “O Horla” de Guy de Maupassant.

Justine, minha reflexão - Retinas Queimadas





Nossa casa é a casa da dor
Sempre que penso em sua morte miserável
O mundo perdeu o seu calor
Essa tristeza me tornou deplorável.



Meu sorriso foi extinto
Antes, os males que eu lia
Eram coisas imagináveis
Estórias de vício e injustiças...



Agora, porém,
Todos me parecem monstros sedentos
A caça do sangue de semelhantes
Todos acreditam que ela é culpada.



O crime que cometeste,
A tornava o ser mais depravado.
Matar por jóias, matar por desejo?
Oh Justine, minha reflexão...



Mas eu sei que é inocente,
Eu sinto isso!
Matar por jóias, matar por desejo?
Oh Justine, minha reflexão...


Acesse RETINAS QUEIMADAS 

terça-feira, junho 02, 2009

Mutilando a orelha de Van Gogh





Ceara com corvos ou Corvos no campo de trigo. 
(1890)


Esses espectros ao meu redor
Noite e dia me fascinam
E a emanação profunda d'alma
Lamenta inconsolável minha sina.





E nós vagamos
E nos lamentamos
Num abismo sem fronteiras
Pinto meu quarto e minhas cadeiras.





Acompanho o vento no campo
E os trigos vem e vão
Ao meu lado sobrevoam os corvos
Corvos negros como a escuridão.





Eles pressentem os meus passos
E reconhecem os meus caminhos
Precisos retratá-los...
Pelas frestas do moinho.





Corvos grasnam com intenção de...
São inteiramente maus?
Eu não sei
Mas, estão vindo em minha direção.





Mutilando a orelha de Van Gogh
Meu Deus como pode?
São inteiramente maus?
Eu não sei.





Os corvos me mutilam
E depois se retiram
São inteiramente maus?
Eu não sei...





*Baseado em "Conflito do Espectro e Emanação": W. Blake.
*No dia 23/12/1888 o pintor 
Vincent Van Gogh cortou um pedaço de sua orelha.

Não nos separaremos mais (Os pessimistas)











A Babilônia ainda não era pó
E o velho mago conheceu sua outra imagem.
Era a face da dó vagando pelo Jardim Sagrado.


Sabia ele que seria o único homem que a contemplou, daquela forma.
E depois implorou, chorou, tragou a si mesmo e se questionou.
Existem dois mundos, o da vida e o da morte.


Um é o que você cruzou agora...
E o outro, velho?
Jaz sobre a Terra e não demora.


As sombras de todas as formas que pensam.
E vivem e respiram...
E caem, sussurraram em seu ouvido.


Nada mais existe entre nós!
Até que essa terra nos una.
E não nos separe mais.


As sombras de todas as formas que pensam.
E vivem.
E respiram e caem, fizeram-no crer no Uno.


Não nos separaremos mais.
Já que a terra úmida unirá nossos elementos.
Sendo "Um" somos todos.
E nada mais impedir-nos-á de deixá-la.


Baseado na obra:
"Prometheus Unbound Ato I"
(M. Shelley)



O motorista, o cobrador e os marginais








Irineu, desde criança, sempre quis ser caminhoneiro.
Talvez por influência paterna, já que seu pai havia décadas, laborava num Mercedes Benz vermelho 1113, trucado, ano 71.
Mas não o era, era motorista de coletivo na capital.
Já na idade adulta fora morar em São Paulo com a esposa em busca de oportunidades melhores e com sua carteira de motorista “classe E”, presente do pai, logo iniciaria na profissão de motorista de ônibus.
E assim foi por longo período.
Irineu acordava ainda de madrugada e iniciava sua jornada a pé até a estação metro sentido sul ao norte.
Subia em Jabaquara e descia na Armênia.
Já na garagem da empresa de viação intermunicipal tomava posse de seu veículo coletivo e partia na busca intermitente a coletar pessoas, os metropolitanos.
Irineu via por meio de suas retinas, um tanto fatigadas pelo acúmulo de labor durante anos e anos, trabalhadores, desocupados, jovens em busca de um futuro promissor, jovens sem futuro algum, mulheres gestantes, mulheres com crianças, policiais, bombeiros, atletas iniciantes, professores no inicio de carreira, professores quase a aposentar, poetas e filósofos entre outros tantos.
No dia das mães último, porém, Irineu fez o que seria seu último itinerário.
Estando a conversar com o colega cobrador, ocioso naquele momento, já que quase ninguém fazia uso do coletivo naquela ocasião, percebera a entrada intempestiva de alguns jovens completamente ensandecidos e com um objetivo fúnebre: queriam dizimar vidas e adquirir matéria, não importasse quais, desde que alheias.
Fizeram-no parar. Irineu um quase herói anônimo não se deixou intimidar e numa tentativa frustrada tentou se deslocar até um DP que ficava três quadras acima.
Percebendo a alteração de rota, foi, de súbito, covardemente agredido com uma coronhada na cabeça sem chance de defesa pelo lider delinquente.
Caiu para o lado esquerdo e seu corpo se apoiou suavemente na lata do veículo.
O cobrador, dizia em ressonante voz que deveriam ter piedade de todos e poupassem suas pobres vidas.
Num diálogo ríspido e esquizofrênico os marginais ordenaram para que todos descessem. Antonio, o cobrador não mais ocioso, tentara ainda numa última atitude, arrastar o colega para fora quando se sentiu ostensivamente interrompido por uma mão armada apontando para seu peito suado e pulsante.
Todos desceram, menos Irineu inconsciente.
O pai de três meninas que ainda estudavam o fundamental sucumbiu lentamente às chamas que incendiaram todo o carro coletivo e parte da fiação elétrica e telefônica da rua em que jazia um trabalhador anônimo; em breve, manchete televisiva e primeira página do jornal sensacionalista que correria pelas bancas no dia seguinte.
Não houve gritos, talvez dor.
Mas Irineu ficara inconsciente durante todo o período em que labaredas vermelhas e fumaça preta subiam ao céu parcialmente nublado.
Naquela manhã de outono, Século XXI a barbárie humana prevaleceu na vida daquela família, agora órfã de pai.

Um domingo diferente


Naquela manhã, Josevaldo acordou bem cedo.
Estava de plantão na terceira corporação de bombeiros situada na zona oeste.
Há quatorze anos Josevaldo trabalhava nessa corporação e fora condecorado três vezes por atos de bravura e heroísmo.
Certa vez, adentrou-se num prédio de sete andares que jazia em chamas e salvou a vida de uma senhora de setenta e quatro anos que desmaiara nas escadas enquanto fazia uma lenta descida.
Por vezes ajudou a apagar chamas ardentes que consumiam sem dó nem piedade tudo o que encontravam pela frente.
Atuou contra incêndios em supermercados, num pet-shop, numa papelaria e quase sempre diagnosticava a mesma origem dos incêndios: problemas nas fiações antigas que gerava curtos-circuitos fatais.
Josevaldo era admirado pelos colegas da corporação e tinha vários amigos fora dela.
Era lateral-esquerdo do time do bairro onde morava e por vezes atuou como técnico do time juvenil da “casa de recuperação”.
Sua marca: dava branidos estridentes que ativavam a molecada a correr e marcar. No time da corporação do terceiro batalhão de bombeiros atuava no ataque, sempre pelo lado esquerdo e, por sorte, fazia muitos gols, alguns belos, outros engraçados.
Essas atuações davam a Josevaldo um status de estrela do time.
Era badalado pelos colegas antes das partidas e após iam sempre se confraternizar num churrasquinho ali mesmo no campo da corporação.
Josevaldo era abstêmio, mas adorava picanha com coca-cola.
Tinha dois filhos, um menino de treze anos, torcedor do Corinthians; que deixava Josevaldo irritado, pois todos sabiam de sua paixão pelas cores do Palmeiras.
O filho mais novo tinha oito anos e influenciado pelo irmão dava impressão de ser corintiano também.
Josevaldo, à hora do jantar nas noites de quarta, se irritava com o mais jovem dizendo:
- Traição dupla em família é demais para mim. Já sou quarentão. Não me torne um cardiopata por desgosto.
O Palmeiras é nosso time, temos que adora-lo de todo nosso coração!
Os meninos riam e desconversavam pedindo para passar a salada ou coisa parecida.
Josevaldo tentou ensinar o hino do verdão para o caçula, mas naquela manhã de sábado quando flagrou o pivete lavando sua bicicleta e cantando a primeira estrofe do hino do timão da zona leste desistiu e voltou para a estaca zero.
- Um dia vou adotar uma criança palmeirense, pois o meu sangue não gerou torcedores para meu time. E ainda torcem para o time rival. Só sendo pai para agüentar!!!
Aquele domingo dia das mães estava ensolarado e fresco.
O céu azul com poucas nuvens dava um ar de meados de outono no país tropical.
Josevaldo presenteara sua esposa com um celular, da promoção, que comprara e saíra já uniformizado para o labor.
Despedira de seus filhos ao portão e fez o caminho de rotina percorrendo quase todo o trajeto de metrô.
Dia tranquilo, tv sintonizada no campeonato italiano em dia de rodada dupla e Josevaldo liderando uma tímida torcida para o Milan.
O comandante, só para irritar torcia abertamente para a Juventus que fazia outro jogo no mesmo horário e era exibido por flashes a cada dez minutos.
Mas há cinco minutos do final das partidas e do campeonato italiano, ouviu-se um som de motocicleta.
Freagem brusca, dois homens protegidos pelos capacetes fechados e uma saraivada de balas de metralhadora em direção ao interior da corporação.
Josevaldo que acabara de se levantar para observar o que acontecia lá fora foi alvejado por doze balas potentes.
Morreu na hora. Óbito instatâneo. Sem defesa.
Outros dois companheiros atingidos não tiveram o mesmo triste final e foram levados feridos para o hospital mais próximo do corpo de bombeiros da zona oeste de São Paulo.
Naquele dia, domingo dia das mães, Josevaldo não voltou para casa.


Outono/2008.

O Dia Que Não Passou










Em frente ao computador, aquele homem não estava com a mínima vontade de expressar coisa alguma. Nem bebericar o café que há tempos esfriara.
Queria ir ao trabalho, vender suas cartas de crédito e seus consórcios habituais de carros, motos e imóveis.
Era alto, magro, pele pálida e lábios arroxeados como se acabasse de beber algum vinho tinto barato.
Corretor de consórcios e imóveis com registro no sindicato e no conselho regional. Mas, naquele dia não saiu de casa, ou melhor, não pode faze-lo como cotidianamente fazia.
Estava ilhado em seu próprio lar.
Nenhum contato com o mundo lá fora. Tudo estava hibernado e ocioso como uma paisagem lunar.
O homem tedioso olhava através de seu monitor 17’ enquanto navegava pelo orkut em busca de comunidades exóticas e obcenas.
Pela TV o repórter de plantão dava suas mais recentes informações e dizia que mais um ônibus fora incendiado na zona sul.
As autoridades municipais e estaduais das secretarias de segurança e transportes estavam reunidas na busca de soluções imediatas, mas pediam desesperados que a população mantivesse a calma.
O homem que labutava pelos labirintos urbanos, necessitado de transporte coletivo, ônibus e metrô, estava anestesiado nas profundezas de seu quarto-escritório.
Internet e TV ligadas simultaneamente, retinas lacrimejando pelos efeitos elétricos da tela do computador e lá ia o ser a retornar a sua geladeira duplex branca para mais uma averiguação de rotina.
Fechando-a pegou uma mexerica que estava dentro da fruteira inox sobre a mesa de madeira cor tabaco. Descascou-a e inebriou-se pelo cheiro do sumo que exalava daquela fruta amarela.
Um dia nada comum, nem mesmo aos domingos aquele magro e alto homem ficava em casa matando os ponteiros de seu relógio que insistia em girar segundo a segundo como uma ciranda interminável.
Mas ele estava lá, refém de luxo no aconchego de seu apartamento financiado pelo feirão da Caixa e com cerca de mais de dezoito anos para quita-lo.
Era feliz, escrevia poesias nas horas de inspiração e estava aprendendo a tocar violão com uma professora negra dos olhos ainda mais negros que, quando o olhava lhe trazia bem estar e satisfação.
A professora, antes de tudo, era, para ele, um afrodisíaco afro-tupiniquim exótico.Pensou em pedi-la em namoro, mas relutou achando ser antiético de sua parte assediar alguém que estava ganhando seu pão de maneira artisticamente singela.
Voltou à geladeira mais uma vez e encontrou um danete gelado que pacientemente foi devorado utilizando-se de uma colherinha de café.
Esse homem adorava saborear danetes com colherinhas de café.
No Orkut encontrou a comunidade Eu Amo Os Anos 80, uma espécie de comunidade de música saudosista para aquelas pessoas que foram jovens nos idos anos 80.
Como ele mesmo dizia e digitava para amigos:
- Adoro aquela bateria sequinha, polida, o contra-baixo potente pontuando a canção e contrapondo-se a guitarra econômica e aquelas vozes melódicas e chorosas de Morrissey, Robert Smith, Peter Murphy e Ian McCullock.No momento em que finalizava seu danete ouvia concentradamente o álbum "Desintegration" do The Cure e lembrava nitidamente no dia em que adquiriu o disco vinil logo após seu lançamento. Hoje, com uma mídia em MP3 com todos os discos do The Cure comprada a oito reais de um camelô na praça dos Correios ele relembrava saudosamente como era comprar um vinil novo. Inefável, pensava.
Lembrou, ainda, sem saber porquê, de seu amigo, Mario Borges, jornalista do Diário: "A Cidade Em Chamas", que no mesmo instante, via pela internet e construia sua coluna do dia seguinte um texto às autoridades competentes na qual dizia raivosamente:
“Expresso de forma enfática todo meu desagravo em detrimento de atitudes nefastas como as que vem ocorrendo de forma sistemática com toda a população honesta e trabalhadora que é justamente quem mais sofre com a ausência de providencias eficazes por parte dos órgãos competentes no intuito de inibir e coibir manifestações marginais. É de nossa responsabilidade, juntamente com a união e o cooperativismo de toda a sociedade civil, reinvidicar soluções urgentes para podermos juntos, pleitear nosso Estado de Direito justo e trabalhando em prol do operário, do profissional liberal, do funcionário público e de todos os funcionário privados que laboram em empresas sérias e geram o crescimento de nossa nação brasileira”.
Esse sentimento de justiça não mais gerava alterações metabólicas naquele homem cansado do cotidiano, cansado de sua vida impar, de solidão nas noites serenas e de observações vagas nos balcões de bares suburbanos.
Resignado?
Talvez pretendesse fazer algo inútil ou gerar cinetismo naquele momento tranquilamente desesperador. Mas a iminência ficava no pensamento.
Voltou à geladeira, olhou-a pela última vez, foi ao quarto minúsculo, abriu sua escrivaninha e retirou um objeto negro e gélido. Única herança do pai.
Após um copo de água gelada com sal de frutas para amenizar sua companheira gastrite, a vizinha de cima, quinto andar de um prédio classe baixa decadente na Avenida Robert Kennedy, ouviu um disparo e chamou a polícia.