terça-feira, junho 22, 2010

Poema para Larry Talbot



"Não havia
Licantropia
Muito menos superstição

Descanse em paz...
... Seu sofrimento acabou
Mr. Larry Talbot"






É quase lua cheia e eu estou mudando
Vejo-a surgindo...
... Uma fúria interna vem crescendo
Jesus Cristo!
Eu estou queimando...




Ah, minha bela Gwen!
Os meus sonhos estão cada vez mais reais
Eles me avisam e me mostram do que sou capaz
Capaz de fazer com minhas duras presas
Use o pentagrama e não ficarás indefesa




...




Súplicas e orações não lhe adiantarão Mr. Talbot
Solitário e de joelhos, sinta o calor dominá-lo
E, em seu quarto, implorar pelo perdão
Para que, quando a lua estiver cheia e brilhante
Nunca mais se torne aquele lobo aterrorizante




Não importa a pureza, o que vale é a destreza
Para fugir dos tiros, armadilhas e pentagramas
Do coração do homem não se mede a grandeza
A licantropia é uma certeza, extinguiu-se a virtude
Amiúde, uma raiva emana e a fúria lhe nutrirá as chamas
Vem à hora da metamorfose que o incitará a novos dramas



Bela foi para um mundo melhor
E eu não romperei a tradição cigana
Embora não fosse sua, a culpa
Quem permanecer vivo terá um caminho conturbado
Ele percorreu um vale espinhoso e agora descansa
Nossas lágrimas secarão e não nos restará nenhuma lembrança.




*Larry Talbot: 
Personagem do filme “The Wolf Man”.
Direção: George Waggner (1941).

domingo, junho 20, 2010

Afirmações do Dr. Frankenstein









Cavalheiros, ouçam-me com atenção
Explicar-lhes-ei tudo, passo a passo
Em anos de pesquisa, observei
Que a alma não abandona o corpo
Tão rapidamente
Do instante em que morremos
Até sua partida definitiva
Têm-se alguns preciosos minutos



Como tem coragem de afirmar-nos isso, Dr. Frankenstein?
Estamos perdendo nosso tempo!
Isso... Isso é um insulto!



Senhores permitam-me...
Se ficarem e assistirem
Atestarão a veracidade de minha tese
No instante da morte física
Capturo a alma, essa é a chave
Ter a alma rapidamente em minhas mãos
Para num corpo reconstituído, instalá-la então
E lhes afirmo:
Não se trata de suposição
É fato e Fritz confirma-lhes meu experimento!



O senhor então crê que dominou a morte?
Exatamente!
E estou plenamente consciente



Quando se morre, sucumbe-se apenas a matéria orgânica
Não a alma; físico e espírito se separam
Resta somente um corpo deteriorado, extinto e violado
Mas, conservando-se a alma
Que se irrompe lentamente ao outro lado
Pode-se transferi-la a um corpo reparado
E, num sopro elétrico, dar-lhe vida, ressucitá-lo
Demonstrarei a todos que venci a morte e posso manipulá-la



Basta, doutor!
Não é porque sua suposição é verdadeira
Que devemos acatá-la, aceitá-la, dar-lhe apreço
Que Deus lhe valha!
Manipular a vida tem seu preço!



*Baseado em: Frankenstein (1831), 
romance de Mary Shelley.

*Homenagem a Colin Clive: 
(20/01/1900 - 25/06/1937). 
Ator Francês que interpretou o Dr. Frankenstein no filme de 1931 do diretor James Whale.

sexta-feira, junho 18, 2010

R.I.P. José Saramago


"Hoje, o mundo ficou um pouco mais cego"


Tuas ficções me contaram muito
Nutriram minhas dúvidas, fizeram-se plenas
Irromperam-me num ritual de passagem.

Precisei fingir para descobrir o que
O que realmente eram...
E fingiam me contar a verdade.








*A José de Sousa Saramago, (16/11/1922 — 18/06/2010).
 Escritor e Prêmio Nobel de Literatura em 1998.

terça-feira, junho 15, 2010

A beira do abismo





Durma comigo, à beira do abismo
Sem cinismos trago-lhe a maré
Tenha fé, às margens do túmulo preparado
Por mim; quebrados foram os sacros objetos


Antes, faça deles uso profano, enfim...
Entre excrementos e dejetos, ervas e enganos
Galhos, árvores vivas, mas secas; não há definidas estações
Extinguiu-se o Sol desse hemisfério e os verões; mistério?


A Lua está morta, órbitas insanas; constatações
Nuvens se desintegraram entre fumaças negras
Fome que mata e mata aos poucos, estabelece-se a verdade
Cidades que se odeiam e criam porcos em varas, por vaidade


Nos jardins do poder cultivam-se ambições psicóticas; dissociadas searas
Terras secas, rios turvos e disciplinantes raivas
Afrouxam-lhes os dentes, lhes inflamam as gengivas
Extinguem-se as assembléias por dispersão dos membros


Corrupção, depravação e devassidão, açucares e cáries
Corpos de inimigos e hostes tornam-se poeira na desoladora paisagem
Enquanto as almas ardem nas chamas das fogueiras
Espectros surgem arrastando-os para a beira...
Do abismo que dormimos juntos, à margem.

segunda-feira, junho 14, 2010

Cinzas vão para as cinzas



Ontem ouvi uma antiga canção
Falava sobre, um certo, Major Tom
O controlador supremo dos vícios e das mensagens
O que abandonou o Paraíso e partiu em viagem


Os conselhos de minha mãe, nunca segui
Ela me apresentou Syd Barrett, e eu entendia os seus dilemas
Agarrei-me num quadro de Marlene Dietrich
Pensei que assim, tornar-me-ia uma antiga rainha do cinema


Perdi minha cabeça, minha lanterna e
Não encontro o meu açoite
Só sinto meu melhor amigo em meu bolso
Trancado nessa cela poderei ficar sóbrio por uma noite


Lembro-me quando manuseava o machado
Meu Deus como eu a amava!
O que eu fiz de bom, quantas maldades cometi?
Depois que o sangue escorreu nunca mais a vi


Soube que se tornou, pelo caminho, na decadente máxima
Não adianta chamá-la, nem vale à pena gritar
Cinzas vão para as cinzas sem nenhuma razão
E, por aqui, não há mais graça e nem diversão


*Baseado em Ashes to Ashes, 
memorável canção de David Bowie
(08/01/1947).

quinta-feira, junho 10, 2010

Ao meu amigo Parkinson!




Beberemos à memória
A memória do amigo
Um brinde, e depois
Leve-me contigo.




Minha mão tremeu
E a taça foi ao chão
Já não tenho o punho tão seguro
Tenho não...




Todavia, esse ato me desafia
E, de novo, ergo-a, pois
Volta ao chão e se desfaça
Antes taça...




... Agora, pedaços de vidro nobre
O convido à outro brinde
Mas agora será feito
Em meu velho cálice de cobre!


*A Roberto Piva: (25/09/1937).

quarta-feira, junho 09, 2010

Sobre gírias e Bilac


Semântica dos canalhas
Covarde audacioso
Sou leitor sensorial
Subjetivo
Extrapolado, curioso

Informações explícitas
Deixo de lado, impaciente
De fato, aprecio o insensato
Em implícitos pensamentos
E, benevolente, acato teu ato
Participo do presente

Pacato, nunca fui
Mas sei onde está
A carta que tu procuras
Sempre esteve em tua bolsa
Fobia de encontrar?
Receio de lê-la, se emocionar...

Fiz leituras prévias da missiva
Levantamento de hipóteses conclusivas
Cultivo a flor do Lácio em minha sala
Assim como Bilac
O Príncipe dos poetas em destaque
Jogo
da fala, tive idéias alusivas

É a última Parnasiana, sorrateira
Palavras que surgem fácil
E se incorporam, toda semana
Outras que se extinguem
Caem no ostracismo
Quem se ilude esperando mais?

Oprimidas pelos vindouros
Suprimem-se, são caladas
Entram no desuso da razão
Pela língua falada,
Extirpadas serão da comunicação
Mas, eis que surge o novo
Inédito jargão
Dinâmica expressão

E novas gírias são criadas
Incorporadas pela população
Disseminadas, faladas
E, novamente, cantá-las vão
Substituem-se as esquecidas
Novo dia, nova criação
Não falo como escrevo
Nunca desejei que fosse assim
Mas, as gírias reconheço
São uma ferramenta útil, mas não para mim!


 



*Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac 
(16/12/186528/12/1918).
Jornalista e poeta brasileiro, membro fundador da Academia Brasileira de Letras.

terça-feira, junho 01, 2010

A espera de um milagre



Estou na fila de espera
Dos mutilados de guerra
Minha Nação venceu o inimigo
E aguardando medicamentos
Não há ninguém comigo


Estou, desde então
A espera de um milagre
A Segunda Guerra Mundial
Adiou meu casamento
E você, sem perder tempo, caiu na estrada


Lembra-te quando, ficávamos deitados na chuva
Apertávamos os polegares um do outro
Estávamos sozinhos há muito tempo
Acabaram de perguntar como estou me sentindo
Você era tão leve e agora eu estou caindo


A espera de um milagre
Eu estou caindo
Minha guerra feriu você
Mas a culpa não foi minha
Estava com as mãos atadas
Esperei metade de minha vida
O barulho do trem anunciou-nos a partida
Sei que realmente me amou
E eu continuo...
Continuo a espera de um milagre!


*Baseado na canção: 
Waiting for a Miracle de 
Leonard Cohen
(21/09/1934).

domingo, maio 30, 2010

Aperte ejetar e dê-me a fita







Peter Murphy, ouça-me...

Aperte: 'Ejetar' 
E, dê-me a fita!

sexta-feira, maio 28, 2010

Christopher Lee volta ao passado


Chris Lee volta ao passado
Com seu negro manto e sua capa
Não há mais morcegos na torre
E ele, permanece intacto, ainda hoje.




Convenientemente vestido ao despertar mortal que encerra o ato
Regozija-se pelo resultado de anos de trabalho árduo
Ainda vive, nos arredores dos Estúdios Hammer, sua melhor personagem
Suas lembranças jazem envoltas em veludos ocres, completando a fúnebre paisagem.




Espalhadas pelo quarto circular, enquanto outras o aguardam na entrada...
Suas noivas; nesse quarto escuro como uma tumba!
De pequena vista pr’o céu; única forma de enxergarem a noite!
Deveras! Ainda vivem essa espera, as noivas de Drácula
E não há uma única capaz de arrancar-lhe todas as máscaras que tiveras?








*A Christopher Frank Carandini Lee: (27 de maio de 1922).
Ator nascido na Inglaterra e, por meio de suas interpretações no cinema, ajudou a popularizar a figura do Conde Drácula, personagem que encarnou por diversas vezes pelos estúdios da britânica HAMMER FILMS.






Fonte: Youtube

Nota: Em 07 de junho de 2015, Christopher Lee deixou sua forma carnal.

terça-feira, maio 25, 2010

R.I.P. Paul Dedrick Gray


"The whole thing
I think it's sick."


Então... Eu saio de cena
A dor chegou p'rá valer
Caos controlado?
... Pode ser

O inimigo se mostrou para mim
Sem máscaras e documentos
Antes de me dar conta, levou-me
E também as cacofonias e todos os instrumentos


Atitude e destreza foram minhas armas
Não ouse sentir pena de mim, agora
Lá fora éramos nove, todos muito turbulentos
Despedaçamos com nossas claves
Os roedores de ossos e os cobradores de impostos


Dos vermes, me tornei alimento
Meu coração esteve sob ataque
Caíram os muros, vieram sobre mim desmoronando
Não aprendi quase nada sobre as maldades do mundo
Sem muita surpresa, estou apenas começando...








*A Paul Dedrick Gray 
(08/04/1972 - 24/05/2010).
Baixista da banda Slipknot.



sábado, maio 22, 2010

Faça do meu crânio sua taça






I
Oh Senhor!
Inclina-me seus ouvidos
Mostra-me sua face
Não quero crenças
Abomino as superstições
A minha busca é somente pelo conhecimento
Não recues de mim nesse momento



II

Mesmo eu estando assim
Pude ouvir o som
Parecia-me uma pá
Fincando no solo sagrado dos mortos
Jazigo fúnebre violado ternamente
Depois, os pedaços de madeira se quebraram
E a tampa foi levantada...



III

Mexeram em meus ossos
Ergueram o meu crânio
Novamente, pude sentir o calor dos raios solares
E, agora que meu cérebro foi carcomido pelos vermes
Encha-o de vinho, brinda-me e beba-o
Enquanto há tempo de fazê-lo; quem se engana?
Não por mim, mas pela existência da raça humana!



A Lord Byron
(1788 - 1824).

sexta-feira, maio 21, 2010

Vou para a Terra de Van Diemen




Abrace-me, estamos perto do cais
Um longo abraço de despedida nessas ruas escuras
Efemeramente infinito e tão intenso
Como a brasa que dissipa o incenso


Momentaneamente me concentro
Na picada da agulha gasta
Faz-me soletrar: G-L-O-R-I-A
Num ritual que perfura-me a carapaça


Quando a maré subir e a febre baixar
Irei embora, e o templo visitarei
Lá precisam-se de muitas mãos para a reconstrução
Para a Terra de Van Diemen, rumarei


Aqui, todos os dias, comprimidos amargos, eu engulo
Acertei as contas com o Senhorio
Deixe-me ir, encontrar o que procuro
Abandonei o peso da pistola e sinto-me seguro


Você acompanhou todos os meus estágios
Conheceu-me muito jovem
Era astuto, aspirante, sonhador e metido em confusões
Sabes o que lhe digo, pois reconhece todas as minhas hesitações


Os que vieram de lá, disseram-me que há oportunidades
Há lucro, há amor e não se vê indiferença nem vaidade
Face a face com a justiça, encontrar-me-ei
E com a ajuda do magistrado, da dor, libertar-me-ei


Não titubearei, ouça, portanto meu desejo:
Antes da partida, abrace-me
Até essa hora acabar e com seu toque me elevar
E, nas terras altas de Van Diemen meu veredicto encontrar.


*Baseado na canção: 
Van Diemen’s Land do U2 
(Rattle and Hum, 1988).

quinta-feira, maio 20, 2010

A paranóia de Roberto Piva


Talvez fosse 1963
E eu, ao acordar, esqueci qual era essa cidade
Qual o nome de suas madrugadas?
De onde vinham tantas precariedades?
Via anjos, chamava-os, mas eram surdos
E, dos seus ouvidos, escorriam lágrimas
Absurdo?
Crianças de tranças vendendo chicletes
Isso sim é contrário à razão
E, porque não
Verei borboletas depois da descarga
Ou um cemitério em festa
A queima de orfanatos
Enfeitados de fotografias coloridas
Fragmentos dessa hemorróida gótica
Enfiarei minha cabeça no aquário fundo
E celebrarei em meio às criaturas exóticas
Cérebros e telhados desse urbano submundo.




*A Roberto Piva: (25/09/1937), é um poeta brasileiro acometido pelo Mal de Parkinson.
Sua obra possui influência da Geração Beat americana e é um dos precursores brasileiros da poesia experimental e onírica.

quarta-feira, maio 19, 2010

Só os gafanhotos são sutis






Repito o que disse há pouco:
Estou rouco e não posso abandoná-la agora
Você é a única...
... A única que aponta os meus lápis


E é tão frágil, se parece com um gafanhoto
Não sou um gafanhoto, Jorge
Sou uma cloaca, a cloaca do seu mundo
De você, quero apenas os poemas
Eu sou os meus poemas, Darlene!


E tomaram vinho por duas horas...


Aquela foi, sem dúvida, uma noite dura
Posso ver o sofrimento em teu rosto
Como perdura...
E, agora quem sofre sou eu
Atravesso cambaleante a luz do mesmo poste


Vacilante, penetro o beco escuro, ao norte
Que sorte, todas as noites ele está em meu caminho
Sozinho, percorro-o levando a sacola
Lá, no final, está o cão a quem devo alimentar
Devagar ele vem... Posso ouvir seu rosnar


... O olfato lhe aguça, prenuncia minha chegada
Porque me diz essas coisas, Jorge?
Porque não consigo me suportar!
Preciso de uma cerveja, outra... Vinho me dá sede
... Mas, é a dor que sempre vem antes


Intervalo de dez minutos, e ambos em silêncio


Só havia respiração e o barulho
O barulho dos goles preenchendo o momento
Percebendo a inércia dos ponteiros, Jorge coça os olhos
É uma coçada brusca que gera mais vontade de coçar
Irrita-os em esfregadelas e distrai-se, se anima e acrescenta:


Nunca terei a saudação dos verdadeiros historiadores!
Pensando nisso, não me contive... Olhei
Olhei para o estacionamento, meu carro ainda estava lá
Olhei para cima e me engasguei, me pus a ofegar, tossi um pouquinho
Olhei para o lado e as mulheres que me assistiam deram-me um sorrisinho...


E continuaram a beber e falar, todas simultaneamente.






*Baseado em:
‘Menos delicados que os gafanhotos’
de Charles Bukowski
(16/08/1920 - 09/03/1994).

terça-feira, maio 18, 2010

Poema da alma


I

Oh, minh' alma
Onde esteve essa noite?
Deixaste-me sem nada


II

Só com os mistérios dos sinais
Esperei que voltaste...
Mas, agora, é tarde demais


*A Clarice Lispector
(10/12/1920 - 09/12/1977).

Poema do corpo



I

Ah, um corpo!
Dê-me...
 O corpo!


II

Que será
Dele?
Meu corpo.



*A Carlos Drummond de Andrade
(31/10/1902 - 17/08/1987).

E agora J.C.?









E agora J.C.?
A festa começou
E ela será infinita
Seu carro na madrugada
A noite toda precipita


Para todo o sempre
Roda, roda, roda...
Com a moça fantasma, roda
Branca e fria, roda até as 6h30
Só ao crepúsculo matutino, encerra


E seu motor quente esfriará
Durante o dia, arrefecerá
Para as 18h30 recomeçar
Se aquecer, inebriar...
Todo o combustível esbanjar


E agora J.C., velará o inocente?
Éramos carne quente, hoje, complacentes, somos pó
Pó de quem morreu antes, histrião demente
Neste falso dia, estamos sós completamente
Você está na reserva, nauseante, inconsciente


O carcereiro foi para a prisão
Para que servem os filhos?
Suplício, martírio, desilusão?
Hodierno, não sabe o que fazer?
Também não vou te iludir
Mudo, ajoelhe-se no púlpito, peça perdão e vá dormir.